terça-feira, 6 de julho de 2010

Quincas Berro D´água

Sérgio Machado apresenta sua adaptação à novela “A morte e a morte de Quincas Berro Dágua”, de Jorge Amado, trazendo mais que uma comédia, pois mantém a tradicional descrição dos cenários baianos, tão característicos nos romances do escritor, e explora muito bem problemas sociais e a relação familiar do mais que finado Quincas.

O senhor Joaquim Soares da Cunha era funcionário público, tinha mulher e uma filha, Vanda (Mariana Ximenes). O salário satisfatório proveniente da repartição e a família estável davam ideia de uma vida perfeita, entretanto faltava-lhe algo; não suportava a rotina de ter que aguentar padrões de comportamento, de aparências e fingir que o relacionamento com sua mulher era perfeito. Ao romper com o estilo burocrático de vida e aproximar-se da vida boêmia de Salvador tornou-se Quincas, posteriormente Berro Dágua, e consequentemente rompeu os laços com a família que passou a renegá-lo.

As novas amizades de Quincas refletem a herança de uma sociedade com bases escravocratas. Não tão evidente no livro, Sergio Machado deixa bastante clara a diferença entre a família, que não chega a ser rica, mas vive sustentando aparências baseadas no que almeja, e os novos amigos, vistos como inferiores e formando a escória da sociedade. Provavelmente o que mais dói para a filha não é apenas o fato do pai ter se aproximado dos descendentes de escravos, que vivem em bares e bordéis, mas também o fato dessas pessoas proporcionarem ao pai um bem-estar maior que a família, e o ambiente de farra proporcionando maior satisfação que o emprego público que é tradicionalmente supervalorizado.
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O que a princípio seria apenas uma comédia nos faz pensar como a felicidade é uma busca ininterrupta em nossa sociedade, porém poucos aceitam que cada um tenha sua própria ideia sobre o que é ser feliz. A família nunca negaria que Joaquim Soares da Cunha buscasse a felicidade, desde que a encontrasse na sociedade de aparências que mãe e filha (jararacas, segundo Quincas) impunham, não em bares, bebendo com os amigos e transformando-se em uma lenda entre boêmios – que no filme se restringe a poucos personagens, mas no livro Jorge Amado mostra maior abrangência da importância de Quincas Berro Dágua. Se a história em si é característica de ficção, seu conteúdo se aproxima muito da realidade, principalmente no livro, no qual as peripécias dos amigos com o cadáver são restritas a poucas páginas e a ênfase está no conflito das duas classes em questão. Não é necessária uma grande busca para encontrarmos exemplos que dão corpo à imposição de comportamento entre as pessoas, formando relações tensas nas quais o que um espera do outro extrapola os limites da individualidade. Ou seja, não basta que o outro seja feliz, mas deve ser feliz a minha própria maneira. Parece absurdo, mas não é tão incomum.
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Sergio Machado transpôs muito bem a obra para a linguagem cinematográfica, explorando os recursos visuais para expor as imagens que Jorge Amado descrevia tão bem em suas obras, divulgado a Bahia de forma brilhante. Paulo José interpreta Quincas e consegue destaque mesmo no papel de morto; notamos em seu semblante o sorriso discreto e debochado ao qual o escritor se refere e sua narração dá apoio à algumas partes do filme.
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Entre livro e filme, o recomendado é conferir os dois! Cada um com sua particularidade, extraindo o melhor que o tipo de linguagem tem a oferecer. Dá para dizer que o filme complementa a obra original com a construção da imagem, explorando as nuances das expressões faciais, das vestimentas, de cada personagem em seu contexto com o cenário e principalmente através do monólogo final. Sem estragar eventuais surpresas o texto, ausente no livro, resume muito bem a essência da vida de Quincas, com a metáfora que aproxima a imensidão do oceano e os enigmas da morte.
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Não bastassem todas essas abordagens mais profundas, temos ainda o lado cômico garantido pelo grande elenco que traz o lado despojado de grande parte da sociedade baiana, que supera as dificuldades e adversidades com muito bom humor.


2 comentários:

Télia disse...

Muito bom o seu artigo!

_Diz disse...

Olá, Alexandre Caetano, muito prazer- qdo quiser apareça por la- virei aqui qdo lembra- ando esquecida...:)
abs, Elianne

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