terça-feira, 25 de setembro de 2012

Elles


O tema da prostituição costuma estar presente em vários filmes, desde as tramas secundárias até o mote principal, porém o trabalho da diretora polonesa Malgorzata Szumowska traz uma abordagem mais perturbadora, ao tentar excluir o moralismo e apresentar certas relações veladas que permeiam o tema.

O contraponto da prostituição se dá com a personagem Anne (Juliette Binoche), ou seja, uma jornalista, madura, mãe de dois filhos, casada com um empresário e que pretende escrever um artigo para a revista Elle, sobre jovens que se prostituem em Paris, para conseguir sobreviver.

O enredo é universal, pois as características citadas em relação ao mundo da prostituição, como alto custo de vida, necessidade de manter um nível social, homens que buscam a fuga da rotina do relacionamento, entre outros detalhes, estão presentes em qualquer grande cidade e, salvo algumas particularidades, justificam a estrutura que sustenta o comércio do sexo.

As entrevistadas de Anne para obter material para sua matéria também representam dois estereótipos. A francesa Lola, o codinome de Charlotte (Anaïs Demoustier), esconde da família e do namorado sua profissão, alegando que não coseguiria outro serviço que a sustente com conforto. A polonesa Alicja (Joanna Kulig) chega a Paris e não vê alternativa para se manter no exterior.

É interessante notar a mudança de postura de Anne ao longo do filme. A jornalista, que a princípio expõe seus preconceitos e tem dificuldade em compreender a naturalidade com que as jovens aceitam a vida que levam, passa a questionar seu próprio estilo de vida.

De um lado vemos as meninas que, bem ou mal, batalham para uma vida independente e desvinculada dos homens, cujos papéis coadjuvantes baseados no machismo histórico sustentam as jovens, em troca da construção irreal de sonhos malucos do universo masculino, baseados na falsa superioridade diante da mulher.

Por outro lado Anne tem a família que aparentemente é o símbolo de sucesso, mas excluído o fetichismo da família feliz, a jornalista percebe que o filho mais velho, da idade das jovens que batalham pelo próprio sustento, é um garoto mimado, que por sempre ter tido tudo, não dá valor a nada. O marido executivo vive preocupado com a aparência de seu casamento e a qualidade do jantar preparado pela esposa para um encontro de trabalho, constituindo, de forma subjetiva, o típico cliente das duas jovens entrevistadas. Seguindo os passos do pai e do irmão mais velho, a tendência é que em breve o filho mais novo aumente o time de homens machistas.

O filme explora pouco os diálogos, dando mais valor às atuações em cenas mudas, talvez por abordar um tema que fica muito mais implícito quando permeia as relações sociais do que abordado de forma escancarada. Porém é possível acompanhar algumas conclusões de Anne, mesmo sem que elas sejam expressas verbalmente. É clara sua insatisfação com a jornada de trabalho associada aos afazeres domésticos, tendo ainda que cuidar dos homens que mal sabem encontrar um objeto dentro de casa e ouvir o pedido do marido, para que maneire nos discursos feministas.

Dentro do sistema milenar de machismo que rege a sociedade, o pedido do marido é plausível. Os homens retratados no filme são patéticos, vergonhosos. Desde o falso estereótipo de marido ideal de Anne, até os clientes das meninas, que variam do impotente, que chora feito uma criança diante da adolescente, ao boçal, que agride a moça para impor uma superioridade inexistente.

Diante de homens tão frágeis, também vítimas do poder capilar do machismo, a única forma de manter as aparências frente às mulheres fortes e batalhadoras do filme, é a censura e a força. O silêncio imposto pelo marido, que não quer que o discurso feminista atrapalhe seus negócios, o silêncio imposto pela sociedade, que fornece mercado para as jovens prostitutas ao mesmo tempo em que as condena pelo serviço, fazendo com que tenham que mentir sobre suas fontes de renda. Afinal, a prostituição pode existir, com a condição de não atrapalhar a aparência da família perfeita, sendo a culpa pelas traições dos maridos sempre atribuída à prostituta, não ao homem que a procura.

Sob a égide da moral e dos bons costumes vemos a hipocrisia de homens impondo a superioridade na base da força e de uma tradição sem sentido. Diante da pesquisa recente que indicou que mulheres são mais escolarizadas do que os homens no Brasil – lembrando que a história parisiense do filme é bastante universal – apenas uma tradição insana, baseada muitas vezes na agressão, pode explicar a hierarquia de gênero na sociedade.

Elles está longe de ser uma obra prima do cinema, mas a crueza com que mostra certas relações geralmente implícitas perturba. Impossível, como homem, não sair envergonhado do cinema.


terça-feira, 18 de setembro de 2012

Intocáveis (Intouchables)


O filme dos diretores Eric Toledano e Olivier Nakache também chegou ao Brasil com o título de “Amigos improváveis”, talvez para diferenciar do homônimo policial, da década de 80. As semelhanças se atem ao título, pois o filme francês aborda a inusitada relação entre o milionário Philippe (François Cluzet), que por ter ficado tetraplégico precisa de um enfermeiro que o ajude em tempo integral, e o desempregado Driss (Omar Sy), imigrante senegalês que vive no subúrbio de Paris.

O tom de comédia e as situações inusitadas na qual vemos Philippe ajudam a explicar o fenômeno de bilheteria do filme, também tendem a nos empurrar para uma análise rasa, de um filme que mostra as possibilidades de diversão e felicidade, mesmo a uma pessoa com sérias limitações físicas. Mais interessante seria pensarmos um pouco além das evidências do filme e explorarmos as entrelinhas dos discursos utilizados.

A princípio os motivos que levaram à escolha de Driss são incertos. O rapaz não possuía nenhuma experiência para lidar com deficientes e geralmente sequer identificava as necessidades de Philippe, cometendo erros dos mais grosseiros aos mais sutis, compreensíveis dado que certas necessidades evidentes para que as sente são quase imperceptíveis para os que nunca se imaginaram atados a uma cadeira de rodas.

Vemos que o interesse de Philippe, que no início chega a parecer um desafio ou mesmo uma birra infantil de provar ao subordinado que este não é capaz de suportá-lo, está exatamente na normalidade com que é tratado por Driss. O desconhecido não o tratava como uma delicada taça de cristal, mas como uma pessoa que apesar de ter perdido os movimentos do corpo, não teve danos à personalidade ou ao intelecto. O filme chega até a flertar com o tema da vida sexual dos deficientes, explorado mais a fundo no filme belga “Hasta la vista”.

O desenrolar do contato desajeitado dos dois não gerou uma relação mais profissional, mas uma amizade surpreendente não somente pela condição física ou pelo despreparo para o emprego, mas pela situação histórica que esta relação evidencia. Não há muitos elementos sobre a vida dos personagens, mas a riqueza de Philippe, como a de tantos milionários franceses, pode ter vindo da exploração de colônias africanas como o Senegal, país de origem de Driss. Este chega à França com poucos recursos e enfrentando uma série de dificuldades, sobretudo o preconceito, para conseguir estabelecer uma condição de vida aceitável.

Certas atitudes do imigrante são tão questionáveis quanto a estrutura social que permite a Philippe enriquecer explorando – direta ou indiretamente ao longo da história – as colônias, para depois utilizar o trabalho pouco qualificado de um imigrante, tentando questionar seus méritos e sua capacidade. A relação entre as sociedades da França e Senegal é repetida incansáveis vezes há séculos. Um país explorado até os ossos, tendo sua população privada de direitos básicos, freando ou mesmo bloqueando o desenvolvimento e a emancipação de seus indivíduos, enquanto na ponta da pirâmide a colônia enriquece material e culturalmente para posteriormente insistir que a diferença entre os dois países está no nível do mérito, esforço ou capacidade.

Aos poucos vemos que o contato dos dois personagens não é bom apenas para Philippe, que para de ser tratado como uma bolha de sabão a ser preservada e passa a ser visto como um ser humano. Também não é bom apenas para Driss, que além do salário que lhe dá um pouco de conforto ainda passa a adquirir maior capital cultural e uma forte referência para a nova profissão.

Os benefícios deste tipo de contato são gerais, por reduzirem certos abismos sociais, não apenas na França ou na relação entre colônia e metrópole – termos que só deixaram de existir na teoria. O contato entre classes tem a capacidade de desfazer preconceitos, esclarecer dúvidas inconscientes e agregar elementos distintos em ambos os lados. Não é apenas Driss que aprende no novo mundo milionário que passa a frequentar, mas Philippe também passa a ter que engolir em seco certos equívocos que sempre encarou como naturais e foram desfeitos pelo novo amigo.

Com uma sociedade extremamente verticalizada, que teme a ascensão das classes economicamente mais baixas e cuja principal meta individual não é a redução do abismo social, mas o êxito pessoal baseado na melhoria da condição econômica, vemos que Intocáveis não diz respeito apenas à vida prazerosa que é possível para um tetraplégico (milionário), mas indica também os benefícios mútuos do contato em lugar da segregação, que rompe com a existência de verdadeiros bunkers, formados por condomínios de luxo, em meio ao mar de caos social gerado pela miséria necessária para a existência dos tais bunkers.

Ps. Tema parecido é abordado no curta nacional “O Xadrez das cores”, de Marco Schiavon, que pode ser conferido na íntegra em www.youtube.com/watch?v=NavkKM7w-cc


quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Meninas


Neste documentário a diretora Sandra Werneck acompanhou por quase um ano a vida de três adolescentes cariocas. Recém-saídas da infância, já encaram a responsabilidade de uma gravidez, com poucos recursos financeiros e todas as dificuldades que a pouca experiência de vida tende deixar ainda piores.

Apesar das três meninas morarem em favelas cariocas, essa é uma situação recorrente no país, representando assim um problema social grave, que o filme tenta expor sem preconceito e com um cuidado talvez excessivo.

Até meados do século passado, com a população rural maior que a urbana, a estrutura familiar era bem diferente. Com menos anos de estudo e a exigência de menos qualificação profissional, era muito mais comum a gravidez ainda na adolescência, que seria seguida de várias outras ao longo da vida. O problema é que atualmente essa característica não condiz com a vida em uma cidade.

Com a necessidade de estudo, qualificação e estabilidade, uma gravidez não impede, mas dificulta enormemente, como pode ser conferido no documentário, a formação da mulher, que em geral ainda deve enfrentar o peso do machismo que isenta o homem de praticamente todas as responsabilidades que deveriam ser partilhadas.

É interessante notar nas entrevistas com os familiares das três meninas forte moralismo, mesmo ao assumir certa responsabilidade pela gravidez. Ninguém fala em prevenção ou esclarecimento das consequências de ter que criar um filho, mas somente de uma suposta promiscuidade, que deveria ter sido evitada por parte da família.

Esse detalhe escancara o embate existente na nossa sociedade entre o moralismo, sobretudo em relação ao comportamento feminino, e a exacerbação da vida sexual, cada vez mais mercantilizada de forma irresponsável, pois seu estímulo (não necessariamente censurável) deveria vir fortemente acompanhado de esclarecimento, tristemente barrado pelo moralismo ignorante.

Vemos no trabalho de Sandra Werneck meninas que mal deixaram a infância, que se envolveram com homens mais velhos, porém inconsequentes e irresponsáveis – comportamento fortemente amparado pela característica machista da sociedade, que relega ao pai, quando muito, o pagamento de uma pensão –, sofrendo as consequências que irão perdurar ao longo de suas vidas.

Diante deste cenário é comum esbarrarmos na ignorância popular que relega às meninas uma suposta culpa por ignorar a evidência dos problemas e dificuldades resultantes de uma gravidez precoce. Entretanto o planejamento familiar e a prevenção da gravidez e de doenças sexualmente transmissíveis não têm nada de natural. É fácil para quem sempre recebeu orientação neste sentido alegar que os desdobramentos da gravidez são óbvios e a prevenção bastante simples, mas no filme vemos Luana, com quinze anos, afirmando que o bebê foi planejado, já que sempre cuidou do irmão mais novo e agora queria um somente dela.

A mãe de Luana passa o dia trabalhando, tanto que deve deixar a filha mais velha cuidando dos irmãos mais novos, passa pouco tempo em casa, tem pouco contato com os filhos e esbarra no moralismo, já citado, em relação à educação sexual. Do outro lado Luana vê o irmão mais novo como uma espécie de “boneca viva” e resolve ter um filho. O que pode beirar o surrealismo para quem sempre foi instruído a primeiro dar valor para uma formação escolar e estabilidade profissional antes de pensar em filhos é extremamente plausível para uma adolescente no contexto social em que Luana vive.

Antes de julgarmos as atitudes das três meninas retratadas, ou qualquer outra em situação semelhante, devemos lembrar que um olhar adulto é construído ao longo da vida. Não dá para esperar que crianças ou adolescentes tenham a noção de responsabilidade que muitas vezes até os adultos só têm de forma idealizada. Certas atitudes inconsequentes da adolescência, como fugir de casa, brigar com os pais, sair escondido, etc., são reversíveis, outras são permanentes.

Cabe ainda lembrar que, do título ao enredo, Sandra Werneck deu foco às meninas, tangenciando o papel masculino, que também é fundamental. Já mais velhos que as meninas retratadas, era de se esperar que os namorados tivessem mais responsabilidade, porém, ainda que o filme não tenha a intenção de mostrar a vida dos pais, fica claro que a mesma falta de informação faz parte também de suas vidas, com o agravante de que o machismo da sociedade estimula fortemente o comportamento irresponsável retratado.

Alguns anos depois a diretora lançou o longa “Sonhos roubados”, que acaba sendo quase um complemento deste documentário, por mostrar a vida de meninas em condições socioeconômicas semelhantes, porém sem focar a gravidez, mas abrangendo as dificuldades e problemas das jovens. Duas obras que devem ser conferidas.


terça-feira, 28 de agosto de 2012

A vida de outra mulher (La vie d'une autre)

Nem todos os filmes precisam de um roteiro complexo e repleto de surpresas para conquistar quem assiste. Neste longa a diretora Sylvie Testud apresenta uma história simples, talvez até pouco original, dado à quantidade de obras que exploram a perda de memória, mas a complexidade da protagonista e a divergência da própria personagem em dois períodos distintos, cativa e instiga os espectadores.

A história basicamente apresenta Marie (Juliette Binoche, que influenciou no roteiro exigindo, com razão, uma personagem complexa), que após conhecer Paul Speranski (Mathieu Kassovitz) acorda quinze anos mais tarde, sem se lembrar de nada do que aconteceu neste intervalo. Uma metáfora que trabalha com uma condição clinicamente pouco provável e com uma reação ainda mais incomum, pois a personagem prefere tentar esconder o fato e se readaptar à vida, ao invés de pedir ajuda e correr o risco de ser taxada de louca.

A moça que acabou de se apaixonar ao completar vinte e cinco anos acorda com quarenta. Descobre ser mãe do pequeno Adam (Yvi Dachary-Le Béon), morar em um ótimo apartamento, estar casada com Paul e ser uma executiva bem-sucedida. Não era mais Marie, agora era a Sra. Speranski.

Apesar de ter tido ascensão econômica, sucesso profissional e um filho ao qual logo se afeiçoou, seu casamento estava prestes a terminar e se tornou uma executiva profissionalmente respeitada, porém temida pelos subordinados e muitas vezes obedecida por medo dos funcionários – o que não a agradou nem um pouco. Apesar de o filme induzir a conclusão de que Marie abriu mão do casamento em prol da profissão, o que chamou a atenção foi seu estranhamento em relação à pessoa que se tornou, tão diferente em apenas quinze anos. Fato que abre espaço para algumas indagações.

Ao tentarmos lembrar, o mais detalhadamente possível, do que éramos há quinze anos, dos sonhos que tínhamos e das pretensões que nos cercavam, o resultado seria muito diferente da perplexidade de Marie, ou por nos acostumarmos paulatinamente às mudanças, não nos damos conta de que nos transformamos em outra pessoa?

A ambição tipicamente adolescente de querer abraçar o mundo esbarra inevitavelmente na realidade, que nos faz abrir mão de cada vez mais detalhes e por vezes nos obriga a moldar aquilo que não podemos desistir até se tornar uma meta bem distinta da que possuíamos a princípio. Diante de algumas conquistas, ou mesmo algumas frustrações, tentamos nos convencer de que chegamos onde queríamos, jogando para baixo do tapete da memória aquela frustração de alguns sonhos que ficaram pelo caminho.

Claro que nem tudo se tornou um terror. Marie, surpreendentemente, cria rápida identificação com o filho e, fora do ambiente hostil do trabalho, ouve do menino que ela é a melhor mãe do mundo (frase batida, mas que cabe para ilustrar esse outro lado de seu futuro). Tornar-se uma executiva de sucesso também estava nos planos da moça, que, além disso, conseguiu se casar com o homem pelo qual se apaixonou e agora tenta uma reaproximação, já que não sabe os motivos da separação.

Um agravante na vida de Marie, pouco comum para a maioria das pessoas, é a mudança social brusca proporcionada pelo casamento. Nas poucas cenas da personagem antes de perder a memória, é possível notar uma vida mais simples, muito contraditória em relação às atitudes da agora Sra. Speranski, cuja herança do sobrenome do marido é constantemente enfatizada ao longo do filme.

Grandes ascensões sociais, quando ocorrem, são vagarosas, de forma que a pessoa assimila pouco a pouco as novidades. Traçamos nossos caminhos dentro de um campo restrito de possibilidades, que não é estático, mas é sempre limitado às possibilidades do período em que estamos. Acordar imerso em uma vida com quinze anos de fatos esquecidos é assustador; quando se está em outro nível social, cultural e econômico, mais ainda.

Para que o casamento não passe em branco por aqui, já que na nova vida de Marie a reaproximação é a principal meta, é claro que ao tornar-se pouco a pouco uma pessoa completamente diferente do que era ao se apaixonar, isso irá influenciar no casamento. Não temos muita informação sobre Paul, mas é certo que ele se manteve em seu padrão social e consolidou a carreira de cartunista – talvez mais próximo de Marie, mas bem distante da Sra. Speranski.

Seria possível uma reaproximação depois de, segundo Paul, cinco anos de brigas? Perfeitamente, sobretudo depois que Marie esqueceu os motivos que acumularam durante anos para culminar no divórcio, e existe a possibilidade de voltarem ao comportamento que os aproximou. Seria possível que a reaproximação, diferente da primeira tentativa, durasse para sempre? Isso já não é tão previsível, mas se o sentimento voltou a existir, por que não tentar?


terça-feira, 21 de agosto de 2012

Hemingway & Gellhorn


Guerra, quando tem um propósito, é uma operação que remove, em um período específico, um câncer específico. O câncer reaparece em diferentes formas, em diferentes partes da raça humana; nós não aprendemos nenhum tipo de medicina preventiva para os corpos das nações. Nós voltamos, repetidamente, para uma cirurgia de alto risco... Quem somos nós, que temos a pretensão de acabar com tudo?
(Martha Gellhorn)


Neste longa acompanhamos um recorte da vida de dois personagens intrigantes de nossa história. Distante de um documentário, o diretor Philip Kaufman apresenta uma ficção de duas horas e meia, que começa um tanto morosa, mas ganha ritmo e cativa ao longo da narrativa.

Ernest Hemingway é interpretado por Clive Owen, que fica bem abaixo de Corey Stoll, no mesmo papel em “Meia-noite em Paris”, e Martha Gellhorn ganha vida através de Nicole Kidman. Filmar a vida de um casal, sobretudo em um filme longo, poderia ser maçante e desnecessário, porém Hemingway teve outros três casamentos, sendo que apenas este é digno de ganhar as telas, não por mostrar a vida de uma celebridade, mas pelo fato da vida em casal ter influenciado diretamente a obra de ambos, de forma a agregar aos fãs de seus textos.

Eu conhecia pouco da obra de Hemingway. Foi através do filme de Woody Allen que meu interesse pelo autor e suas obras explodiu. Da mesma forma, com este filme descobri Martha Gellhorn e seu crescimento profissional mútuo com o escritor. É curioso que, da mesma forma que os dois se aproximam lentamente, de forma um tanto confusa e receosa, até se entregarem um ao outro, o filme de Kaufman também começa descompromissado, um pouco confuso até que passa a convencer quem assiste.

Alguns cortes de imagem para tons de cinza ou imagens mais granuladas acabam não tendo um resultado muito positivo, mas é compreensível que com tanta diversidade de cenários e períodos históricos, certos recursos tenham que ser utilizados em prol de uma produção satisfatória, mas sem custos exorbitantes.

A história do filme ganha fidelidade com a participação de personagens como o cineasta Joris Ivens (Lars Ulrich, baterista do Metallica), coletando material para o filme “A terra espanhola” (1937). Com isso temos mais uma referência cultural a ser conferida, juntamente com as obras de Hemingway e os escritos de Gellhorn.

Foi durante essas filmagens que o famoso casal foi consolidado. A atração mútua ficou latente diante dos interesses em comum e o resultado foi benéfico não apenas para os dois, mas para a história como um todo, uma vez que ambos perceberam que os textos produzidos poderiam extrapolar os limites da ficção, servindo também como denúncia, alerta e expressão dos sentimentos mais diversos que uma situação de conflito possa proporcionar.

A paixão do casal complementada pelo amor dos dois pela escrita influenciou nas produções que proporcionaram ao mundo lindos romances de Hemingway, que mesmo tendo abordado temas historicamente distantes, o fez de forma que seu conteúdo permanece extremamente contemporâneo e necessário, além das coberturas de guerra feitas por Gellhorn, documento histórico incomparável e também tristemente atual, dado a constância dos temas fúteis e incabíveis de um conflito armado.

Ainda que o filme não tenha o caráter de documentário, portanto o enredo pode surpreender a quem assiste, seu desfecho não foge da dureza da realidade que encerrou a vida dos protagonistas. Pelo estilo direto, cru e objetivo, tanto das obras de Hemingway quanto de sua própria vida, ninguém poderia esperar um desfecho romântico e animador para o que quer que tenha passado pela vida do autor.

Por vezes citado como estereótipo de virilidade, outras criticado por machismo, vemos aqui um Hemingway com tantas virtudes e tantos defeitos quanto qualquer outra pessoa e mesmo já famoso ao iniciar seu relacionamento com Gellhron, é possível notar que o relacionamento inspirava e complementava o trabalho de ambos, não havendo disparidade ou dependência de um em relação ao outro.

Talvez para atenuar a ideia de machismo que ronda o escritor, Kaufman enfatiza Gellhorn como uma mulher independente e extremamente profissional, que aprendeu muito com o escritor – até por ser quase dez anos mais nova – mas que também contribuiu com seu lado profissional, suportou seus comportamentos que muitas vezes beiravam a infantilidade e teve personalidade para reconhecer que o relacionamento já não contribuía ao casal, pelo contrário, desgastava a ambos, que não compartilhavam mais os mesmos interesses.

Difícil dizer o quanto ambos sofreram com o fim do relacionamento, mas aqui entra a fabulação enfatizando o sofrimento romântico. É até bastante compreensível que duas pessoas que conheceram tão de perto os horrores de diversas guerras acumulem angústias e sofrimentos. Somam-se a isso os sentimentos conturbados de Hemingway, chegando ao extremo de ter que lidar com o suicídio do pai, e a dificuldade intrínseca de escrever alertando ao mundo sobre as dificuldades da vida.

A história de Hemingway e Gellhorn está longe de caber em um filme, mas esta obra é válida pelas referências culturais e mesmo por apresentar-nos um pouco dessas duas personalidades bem atrativas.


terça-feira, 7 de agosto de 2012

À beira do caminho


Do título ao enredo, o novo longa de Breno Silveira é estruturado com o apoio de músicas de Roberto Carlos. Questões musicais a parte, o fato é que toda a atmosfera do filme, as características dos personagens e o desenrolar da trama combinaram muito bem com a trilha sonora, sendo que, com a quantidade de fãs de Roberto Carlos, o público potencial do filme irá se emocionar bastante com a junção de letras e cenas.

O roteiro nos remete ao filme Central do Brasil (1998), já que ambos apresentam um menino sem família que quer cruzar o país em busca do pai. A diferença é que aqui o roadmovie faz o caminho inverso, do nordeste ao sudeste, evidenciando a migração forçada, entre outros fatores, pelo desenvolvimento econômico desigual, que tantas vezes auxilia na separação involuntária de famílias cujos membros não entram em consenso diante da difícil decisão sobre onde tentar a vida.

Outra diferença entre os filmes é que em Central do Brasil o menino é guiado por uma personagem feminina (Fernanda Montenegro), criando uma relação mais maternal entre os dois. Aqui o pequeno Duda (Vinicius Nascimento) cruza o caminho de João (João Miguel, com atuações cada vez mais encantadoras), um caminhoneiro misterioso, mal humorado e que parece fugir de seu passado, uma história paralela, desvendada aos poucos com cenas entrecortadas.

Duda e João têm uma relação complexa desde o início. O menino não tem muitas alternativas além de confiar no estranho, geralmente rude e fechado, de quem tenta arrancar algum tipo de amizade e contato. O caminhoneiro, ao mesmo tempo em que mantém sua rotina na estrada, sem distrações e pensando no passado que o atormenta, encarando o menino como um estorvo do qual deve se livrar, também assume aos poucos uma atitude mais paternal, com preocupações e cuidados.

A primeira metade do filme é permeada por cenas engraçadas, que quebram um pouco o drama da história pesada. Daí para o fim o drama do menino, que mantém a esperança infantil de encontrar o herói na figura do pai, que supostamente resolverá seus problemas, soma-se ao passado de João, que aos poucos é apresentado como uma história triste e repleta de remorsos. De forma intencional o diretor opta por deixar seu filme cada vez mais emotivo até o desfecho.

A esperança, simbolizada por um menino esperto, porém ainda bastante inocente, é conflitada a todo tempo com a desilusão, simbolizada pela amargura de alguém que parece ter desistido da vida, desleixado e sozinho. Não é por acaso, nem é somente para emocionar, que por vezes os papeis se invertem e o menino toma conta do caminhoneiro. É o elemento novo que vem para quebrar uma rotina apática e tentar resgatar o brilho que existe, mas anda ofuscado pelos anos de solidão e sofrimento.

Portanto, conforme indicado, o filme lida com perdas, abandonos, amores não correspondidos e foca o tempo todo no laço de amizade construído pouco a pouco entre os dois personagens, ao longo da viagem que cruza o país. Assim, as cenas que usam as músicas de Roberto Carlos são muito bem complementadas pelas letras, até pelo estilo brega de algumas canções, que embalam uma festa de beira de estrada melhor que qualquer outro estilo.

Chama a atenção ao longo do filme a vida sem rumo que Duda leva, sendo que de todas as opções para o futuro do menino, a grande maioria não garantiria um futuro promissor, tendo sido um grande acaso o encontro com João. Da mesma forma que algumas vezes o menino se viu perdido, essa situação é vivida diversas vezes por vários menores, que não têm o caminho cruzado por alguém que pode se tornar uma referência. A emotividade do filme tem caráter didático quando vemos que uma criança não tem condições de viver completamente sozinha – feito complicado até para um adulto. É um fato um tanto óbvio, mas sua demonstração é sempre pertinente. Não é demais lembrar que somos socializados ao longo da vida e nosso comportamento é moldado de acordo com os exemplos e oportunidades que temos ao longo da vida, sobretudo durante a infância.

Ainda que possa ser criticado pelo excesso de drama, o filme de Breno Silveira trabalha bem com elementos de nossa sociedade e nossa história. A desigualdade social entre regiões, o trabalho difícil dos caminhoneiros, a falta de cuidado com menores sem família, as músicas que fazem tanto sucesso há anos, tudo isso guiado pelos sentimentos reprimidos de João, que mesmo sem perceber busca as pazes com sua própria vida.


segunda-feira, 30 de julho de 2012

A Culpa é do Fidel! (La faute à Fidel!)

Com muitos estereótipos, metáforas e bom humor a diretora Julie Gavras nos apresenta seu filme, que nos remete aos anos 70, no conturbado período pelo qual o mundo passava. Com a consolidação da Revolução Cubana, a eleição de Salvador Allende no Chile e o governo fascista de Franco na Espanha, acompanhamos a família da pequena Anna de la Mesa (Nina Kervel-Bey) na França, cujos pais são militantes de esquerda e a babá, vinda de Cuba, extremamente reacionária, causando grande confusão tanto para ela quanto para o irmão mais novo.

Se por um lado os pais mergulharam cegamente na ideologia comunistas, preocupando-se até mesmo com símbolos inúteis como pintar as paredes do novo apartamento de vermelho, a babá é o símbolo extremo de uma ideologia reacionária. Velha, teimosa, ranzinza e sem querer abrir mão da tradição que favorecia economicamente sua família, passa conceitos errados para a menina, que os absorve mesmo sem compreender muito bem o que significa os tais “barbudos vermelhos”.

A menina, perdida entre os dois extremismos que não costumam primar pela argumentação, simboliza bem a população como um todo, ou seja, aquela maioria que não chega a se preocupar com o rigor teórico das ideologias que dividiram o mundo durante a guerra fria, mas que acabam tomando partido pela informação recebida de alguma forma.

É evidente que a princípio a babá leva vantagem ao tentar persuadir a jovem, já que é uma família tradicional, na qual Anna cresceu por quase dez anos, até que mudam para um apartamento menor, com outra babá e outros hábitos. A simples ideia da mudança já pode assustar e gerar desconfiança, sendo que uma mudança baseada em decréscimo econômico sem dúvida irá desagradar uma criança que ainda não entende muito bem o que motiva tudo aquilo.

Já seus pais, levados à militância graças ao assassinado de um parente espanhol pelo regime franquista, passaram a ver na ideologia do partido tudo o que procuravam, mas parecem ter esquecido de que essa transição nada tinha de natural para os filhos. Mergulhados em muito trabalho, optavam pelo caminho mais rápido em relação às crianças, assim passaram a proibir o catecismo da filha, mudaram a rotina da menina e deram poucas explicações sobre tudo o que estavam vivendo.

Dentro do universo infantil, que tem a deliciosa tendência de fantasiar o dia-a-dia, o choque entre as imagens criadas pela babá e as vividas em contato com os pais gera muita confusão, até que algumas peças comecem a se encaixar e a menina possa tirar suas conclusões baseadas tanto no que ouve quanto no que vive.

A vantagem que a menina leva em relação à sociedade é poder viver próxima de situações conflitantes do ponto de vista ideológico, para só então comparar certos fatos e tirar as próprias conclusões, ainda que tendenciosa por viver o tempo todo com os pais. Talvez os tais barbudos vermelhos não fossem tão maus quanto dizia a babá, que não explicava muito bem o que estava querendo dizer. Por outro lado, talvez o grande valor que os pais davam ao comportamento em grupo poderia ser apenas como uma ovelha que acompanha o rebanho. Portanto as fontes de informações, ainda que parciais, são multifacetadas, diferente da maioria da população com acesso majoritário à mídia oficial.

Chama a atenção ao longo do filme o maniqueísmo com que a menina é tratada, da mesma forma que a clivagem entre capitalismo e comunismo é apresentada ao longo da história. Tanto os pais quanto a babá limitam-se a exaltar os pontos que defendem e criticar a oposição de forma vazia, sem deixar muito claro o porquê das divergências – possivelmente por ignorarem os reais motivos, sobretudo a babá que evidentemente não tem nenhuma clareza sobre o que é a ideologia comunista.

Diante destas certezas tão frágeis que são defendidas ao longo do filme, a dialética parece ter espaço para atuar e formar uma conclusão multifacetada, baseada não somente em opiniões com pouco fundamento, mas comparando diversas fontes para uma decisão mais sólida e fundamentada, diferente da opinião pública, que desde os anos 70 parece abrir mão cada vez mais de uma ideologia fortemente embasada, aceitando qualquer opinião difundida pela mídia, por mais que soe como um conto de fadas. Chegam até mesmo a acreditar que a culpa, de tudo, é de Fidel.


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Linha de passe

Esta parceria dos diretores Walter Salles e Daniela Thomas nos traz o cotidiano de uma família do subúrbio de uma grande cidade, focando estereótipos bastante reais para apresentar um estilo de vida muito comum, repleto de dificuldades e inundado de sonhos.

A matriarca Cleuza (Sandra Corveloni) cria seus quatro filhos sozinha, grávida mais uma vez e se esforçando para trabalhar como doméstica até o limite que sua gravidez impuser. Sem carteira de trabalho assinada, ela não tem direitos trabalhistas e, mesmo com três filhos já adultos, depende de sua renda para sustentar a casa.

O meio social de um indivíduo não determina seu futuro, mas evidentemente influencia nas escolhas e decisões, ainda que inconscientemente. Cada um a sua maneira, os quatro filhos de Cleuza mostram como as dificuldades econômicas, a ausência da figura paterna e outras influências externas acabam contribuindo com detalhes, que quando somados resultam em uma perpetuação da condição de vida da família, na qual todos tentam driblar as dificuldades a seu modo.

Enquanto o quinto filho de Cleuza não nasce, o caçula é Reginaldo (Kaique de Jesus Santos). Ainda criança sua principal preocupação é distinta dos irmãos mais velhos. Reginaldo é obcecado por conhecer o pai. Ainda não superou esta falta e gosta de passar o dia em um ônibus circular por desconfiar que o motorista seja seu pai. Este resquício de origem familiar é suficiente para inspirar o menino a seguir os passos do pai e ele sonha em ser motorista. Há uma bonita cena em que o homem ensina o garoto, sem saber da relação de paternidade. A influência familiar na escolha da profissão é forte em todas as camadas sociais. Antes de pensar nas vantagens e desvantagens que uma carreira pode trazer, uma criança como Reinaldo se espelha no primeiro herói da criança, seu pai, para sonhar com o futuro.

Com o passar dos anos a tendência é que a realidade da ausência do pai ganhe espaço. Dario (Vinícius de Oliveira) já não busca o pai, mas mantém um futuro utópico ao tentar ser jogador de futebol. Sua grande categoria esbarra em dois empecilhos, a idade avançada para iniciar a carreira profissional – mesmo tendo apenas dezoito anos – e a falta de dinheiro, pois pagar ao olheiro facilitaria o caminho para a tão sonhada oportunidade. A ilusão criada pelo mundo milionário dos grandes clubes de futebol seduz muitos jovens como Dario, que podem inclusive abrir mão de possibilidades reais em prol do mundo de sonhos que se concretiza para tão poucos. Sua mãe, também com pouca instrução e muitos problemas e fanática por futebol, não chega a instruir o filho a seguir seus sonhos mantendo uma hipótese mais plausível em vista.

Denis (João Baldasserini) em um aspecto parece ter seguido os passos da mãe, pois já é pai e a pensão do filho é só mais uma das obrigações financeiras da qual o jovem não dá conta. Com pouca qualificação, o trabalho de motoboy toma boa parte de seu tempo. Quase sem referências familiares e com poucas relações sociais para procurar alternativas à sua realidade, o jovem é constantemente tentado a entrar para o mundo do crime. Uma saída perigosa, criticável e que deve ser evitada, mas as alternativas de Denis não são as mais atraentes.

Por fim, Dinho (José Geraldo Rodrigues) aparentemente tem uma vida mais estável e menos problemática, trabalhando como frentista e dedicando sua vida ao engodo de uma igreja evangélica, com as famigeradas técnicas de sedução de fiéis, imputando nestes a culpa por problemas cotidianos muitas vezes atribuídos à falta de fé. Se por um lado Dinho leva dinheiro para casa e tenta aconselhar os irmãos, por outro parece fadado a uma vida estagnada naquela condição, mais controlado pelo pastor da igreja do que responsável pelas próprias escolhas.

Linha de passe está longe dos filmes de ação hollywoodianos ou das comédias sem graça da Globo Filmes, porém próximo da realidade de uma parcela considerável da população. Se o filme parece lento, é por retratar a vida de personagens que vivem para trabalhar, sacrificando distrações para viver as preocupações de uma vida difícil.

Culpar cada um individualmente pela condição de vida que leva é uma ideia tão sedutora quanto falsa. A baixa qualificação, os sonhos quase impossíveis, as decisões equivocadas não devem ser atribuídas a outros fatores distintos do capital social que cada um carrega, criando um campo de possibilidades extremamente restrito, que só não impõe barreiras aos sonhos, que inspira cada personagem a seguir em frente. Em meio a tantas dificuldades, talvez haja momentos de prazer para colorir um pouco o trabalho da vida.


quinta-feira, 5 de julho de 2012

XXY

Como o título já indica, o longa da diretora Lucia Puenzo aborda, através da protagonista Alex (Inés Efron), a vida de uma pessoa com cromossomos XXY, que possui, portanto, características físicas femininas e masculinas. Em uma sociedade ainda presa a rótulos, em qual se encaixa a sexualidade de alguém que biologicamente foge dos padrões da maioria das pessoas?

Alex tem 15 anos, idade confusa para qualquer adolescente, repleta de dúvidas, confusões pessoais, conflitos internos e externos, etc. Além de não fugir dessa fase, a protagonista ainda tem que lidar com ambiguidade física de seu corpo, que lhe garante grande confusão quanto ao seu próprio gênero.

Para evitar o assédio dos médicos que insistiam em oferecer uma cirurgia, que pelos diálogos do filme parece mais uma oportunidade de estudo de um caso raro de medicina, do que uma real preocupação com o bem estar da paciente, a família mora em uma pequena vila de pescadores no Uruguai.

É mais difícil evitar o assédio da população local, que ao perceber que há algo diferente em Alex, criam várias especulações sobre sua vida. Infelizmente o preconceito em relação ao que foge dos padrões tradicionais não se restringe à pequena vila isolada, nem somente aos casos de indivíduos com cromossomos XXY. Estes apenas confundem os que insistem em impor um padrão fechado a ser seguido.

Em tempos em que o deputado João Campos (PSDB-GO), da bancada evangélica, luta para que psicólogos sejam autorizados a curarem homossexuais, o filme de Lucia Puenzo pode se tornar mais uma tentativa de explicar o que nem deveria ser tão difícil de entender: a sexualidade não é uma doença. Tão pouco se restringe às características biológicas dos corpos.

Diante da obrigatoriedade maluca imposta aos indivíduos de seguir a sexualidade do próprio corpo em uma heteronormatividade, o que fazer com um indivíduo cujo corpo não define claramente ser um homem ou mulher? Com a puberdade a menina deve tomar comprimidos para evitar o crescimento de barba e o desenvolvimento de outras características masculinas no corpo, mas a sexualidade extrapola a vontade externa. Alex para de tomar os remédios, mas não tem certeza se quer assumir as características masculinas. Qualquer adolescente tem dúvidas diante de questões muito mais simples, que dirá diante de algo que afetará toda sua vida.

Os pais tem papel fundamental na vida de Alex. Kraken (Ricardo Darin) e Suli (Valeria Bertuccelli) não sabem muito bem como agir em várias situações – como quando a menina decide parar de tomar os remédios – porém a obrigatoriedade de lidar com a situação, e a relação afetiva de pais e filhos, faz com que o casal aprenda na prática a tolerar o que é diferente do que esperavam. Esta é uma importância fundamental do cinema e outras formas de arte, pois tem o poder de expor casos extremamente condizentes com a vida real, naturalizando o que muitos ainda veem como errado dado à falta de conhecimento e falta de contato com o que é diferente do que estão habituados.

Os homofóbicos, sempre curiosamente preocupados em impor um comportamento, deveriam notar através de XXY que a sexualidade não se restringe às características físicas dos indivíduos, e respeitar a orientação de cada um já é uma grande evolução para um comportamento que há séculos reprime de forma violenta uma parcela da população, simplesmente por não seguir um padrão imposto com toda força e ignorância.

A homossexualidade pode ser coibida através da força, como fazem em países como Irã ou Afeganistão e como já foi feito em nossa sociedade, onde inacreditavelmente há saudosistas interessados em resgatar essa prática patética. O filme Maurice (de James Ivory, 1987) mostra bem como alguém pode ceder às pressões sociais e abrir mão dos sonhos para seguir um padrão de vida imposto. Difícil entender como as pessoas que fazem questão de ditar regras de comportamento se satisfazem com isso; mais fácil é notar a frustração de quem deve lutar contra algo que bate de frente com seus próprios sentimentos.

Para a protagonista Alex não há a opção de lutar contra os sentimentos para se encaixar no padrão que lhe oferecerem. Talvez o melhor seja tentar viver a vida, que como qualquer outra terá vários problemas, e deixar as pequenas mentes presas em padrões retrógrados perderem tempo discutindo sua situação.


terça-feira, 26 de junho de 2012

Febre do Rato


O diretor Claudio Assis trouxe a expressão popular “febre do rato” para o título de seu filme, traduzindo muito bem o protagonista Zizo (Irandhir Santos). Está com febre do rato aquele que está fora de controle, assim como o personagem, poeta do subúrbio de Recife, que com muita arte e cultura constitui um foco de resistência contra a desigualdade social e a condição de vida difícil à qual boa parte da população brasileira é relegada.

A periferia retratada no filme tem elementos da dificuldade cotidiana, porém o foco principal está em algo além dos problemas, em algo que move aqueles que não deixam de viver por conta de uma situação socioeconômica repleta de empecilhos. E em um ambiente que em geral é falsamente estereotipado com base na simplicidade extrema, Zizo ganha destaque pela sofisticação de seus versos, usados principalmente para o amor e para a contestação política de sua condição de vida.

A arte nem sempre é simples, nem óbvia, nem trivial. Mas há em sua essência uma motivação questionadora, que faz florescer naqueles que admiram suas formas multifacetadas a dúvida diante do que já está estabelecido. Assim são os poemas de Zizo para seus amigos. Em um meio carente de cultura vemos personagens como Pazinho (Matheus Nachtergaele) com dificuldade para compreender as palavras difíceis do poeta – o que rende cenas divertidas –, mas também é notável o valor que se dá ao elemento lúdico, que é fundamental para aliviar as tensões da vida. Os próprios filmes de Claudio Assis são exemplos claros disso. Assim como seus antecessores – Amarelo Manga e Baixio das Bestas – o atual trabalho não tem nada de óbvio, instigando a reflexão de quem assiste, como é característico do chamado cinema de autor.

Para tocar na que talvez seja a maior e mais incurável ferida do país, ou seja, a desigualdade social gritante, o longa trabalha pontos pouco atraentes para filmes de massa, explorando a nudez e a falta de pudor, que sem dúvida é chocante, mas somente para aqueles que veem a desigualdade social, que deveria gerar a real perplexidade, de forma impassível.

O uso dos corpos para a exploração de sua fonte de prazer, sem falsa moral ou pudor, já era conhecido na Grécia antiga, e sofre censura relativamente recente na sociedade, sobretudo depois da reforma protestante. Esse embate entre prazer e censura é bem simbolizado por Eneida (Nanda Costa), tentada pelos enigmáticos versos incompreendidos de Zizo ela resiste às suas seduções, porém não por moralismo, mas talvez esta seja sua forma de brincar com o cotidiano, quebrando com o esperado, de forma semelhante ao poeta, mas sem sua habilidade para a escrita.

Este é um ponto em que o cinema de arte é frequentemente atacado. Felizmente a crítica se desfaz por sua própria falta de conteúdo, pois enquanto filmes belíssimos como ‘Febre do Rato’ são produzidos, suas críticas negativas caem no engodo de classificá-los negativamente pelo excesso de nudez e a exibição das classes baixas, enquanto convenientemente fazem vista grossa à essência do roteiro, que é o embate entre classes sociais, tema indicado como esgotado por quem é beneficiado pelo abismo econômico da sociedade, mas triste e assustadoramente presente no dia-a-dia.

A síntese do sujeito com a febre do rato vem de uma espécie de dialética entre arte e realidade. A sociedade brasileira, que há quase meio século viu a intervenção militar castrando ideologias políticas, coibindo artistas e reprimindo a vida daqueles que querem de fato vivê-la, parece ter vergonhosamente se acostumado com a repressão militar, que hoje fica a cargo da polícia, mantenedora do histórico hostil e metodologia avessa ao diálogo.

Quantos Zizos há na periferia de Recife, São Paulo, Manaus, ou qualquer cidade brasileira, produzindo sua arte e contestando sua própria condição social, é difícil saber. Mas sem dúvida eles são tolerados enquanto mantém suas formas de expressão restrita aos guetos da pobreza. A partir do momento que tentam quebrar a ordem para conseguir, de fato, o progresso, o conservadorismo daqueles que estão no topo da pirâmide social não se contenta mais em apenas criticar a falta de pudor ou moral. É necessário usar isso como argumento para suprimir a voz que exige seus direitos.

Em tempos em que a violência policial é vista como necessária para suprimir a voz daqueles que já são suprimidos de tantas outras formas, Febre do Rato deixa implícito a alternativa de uma vida vivida em sua plenitude, repleta da arte que a ilustra e instiga, sem amarras, sem bloqueios, sem alienação e com o prazer ilimitado que ela pode conter.


terça-feira, 19 de junho de 2012

Hasta la Vista - venha como você é (Come as you are)


Através do longa de Geoffrey Enthoven somos levados em uma viagem muito especial, da Bélgica à Espanha, na companhia de três jovens. Em essência uma história bastante comum, ou seja, amigos que acabaram de sair da adolescência e usam como pretexto aos pais conhecer vinícolas espanholas, para na verdade visitar um bordel em Punta Del Mar.

A particularidade é que a ideia partiu de Philip (Robrecht Vanden Thoren, em atuação brilhante) que é tetraplégico, portanto precisa de ajuda para praticamente tudo o que faz. Uma das inspirações para a viagem é seu amigo Lars (Gilles De Schrijver), paraplégico devido a uma grave doença que pode tirar sua vida a qualquer momento, de forma que Philip quer garantir um pouco de diversão. Fechando o trio temos Jozef (Tom Audenaert, garantindo as cenas mais engraçadas) que é cego e gosta da ideia de conhecer ‘El Cielo’, um prostíbulo adaptado para portadores de necessidade especiais. É com o objetivo real de perder a virgindade que os amigos driblam resistências e dificuldades rumo à Espanha.

Entre as inúmeras formas possíveis para trabalhar este argumento, vemos uma opção interessante do filme, mostrando que uma viagem assim é possível e bastante viável, já que é passível de problemas como para qualquer viajante disposto a por os pés na estrada. O roteiro poderia ter sido todo escrito em tom de denúncia, mostrando o quanto as cidades são despreparadas para as necessidades dos portadores de determinada deficiência, porém no filme essa denúncia permeia as situações vividas pelos três amigos de forma bastante cômica, fazendo com que a crítica seja exposta de forma positiva, mostrando que a viagem da qual muitos duvidavam é possível.

Para ajudar na viagem eles são auxiliados por Claude (Isabelle De Hertogh), enfermeira que, com uma van adaptada, transporta os amigos e cuida da estadia. Alguns problemas pessoais da enfermeira – revelados durante o filme – e seu estereótipo alvo de brincadeiras de Philip e Lars fazem com que ela, mesmo distante da realidade dos amigos, fique talvez mais próxima de um sentimento de distanciamento da sociedade. Em pouco tempo os quatro viajantes já demonstram união e a profissional contratada para acompanhar parece mais uma amiga, sobretudo após apresentar aos amigos seu ‘hotel 1000 estrelas’.

Hasta La Vista evidencia que várias características daqueles que portam necessidades especiais não devem ser vistas com um olhar de compaixão ou algo do tipo. A deficiência física não os faz menos humanos, logo não deixam de ter os mesmos sentimentos, virtudes e falhas que qualquer pessoa. Não é necessário mais do que um pouco de bom senso para notar que Philip algumas vezes tem um comportamento questionável, principalmente em relação a Claude, porém nesse aspecto sua deficiência pode ser abstraída para notarmos que qualquer pessoa possui temperamento instável e que nem sempre a razão prevalece sobre as ações. Ao julgarmos equivocadamente como ingratidão uma atitude de quem não quer ser ajudado, fechamos os olhos para nossa própria ingratidão, muito menos justificável, ou ainda para o simples desejo que todos temos (com ou sem necessidades especiais) de um momento de privacidade, autossuficiência e afirmação pessoal.

A presença dos familiares, sobretudo de Philip, que requer maior auxílio, e de Lars, que tem a saúde mais frágil, é pequena e presente somente para dar fluência no enredo e indicar a necessidade de discernimento entre o que é realmente necessário em termos de atenção e o que extrapola esse limite, resultando em uma destruição desnecessária dos sonhos. Mais uma vez é factível a relação dos três jovens com outros quaisquer, sem limitações de movimento ou de visão, afinal, com cerca de vinte anos, qualquer jovem é seduzido pela ideia de uma viagem escondida, com fins distintos do que foi dito aos pais. A preocupação da família é compreensível, mas a intervenção desta deve sempre ser limitada para não limitar.

A comédia sutil e a crítica contida na aventura dos três amigos formam um filme que emociona e inspira, podendo ir além do senso comum baseado no engodo de que há ‘problemas maiores que os nossos’. Fica nas entrelinhas que todos passam por grandes dificuldades em determinadas situações, o que tem duas implicações: a primeira é que isso não é motivo para fugir da vida; a segunda (e mais importante) é que ninguém, nem mesmo os pais, têm o direito de coibir os sonhos sob o argumento proteger os sonhadores.


terça-feira, 5 de junho de 2012

Paraísos Artificiais


Com este longa o diretor Marcos Prado traz para as telas um tema bastante complexo, sobretudo pela falta de informação correta a respeito. O consumo de drogas sintéticas segue como tema proibido, de forma que o conhecimento que poderia auxiliar no discernimento sobre o consumo ou não das substâncias segue oculto na sociedade, que insiste em encarar todas as drogas da mesma forma, sem sequer saber ao certo quais os efeitos e malefícios de cada uma.

O roteiro demora um pouco para engrenar. O filme começa com alguns elementos desconexos para mostrar o romance da DJ Érika (Nathalia Dill) com Lara (Lívia de Bueno), e entre alguns flashbacks e momentos presentes vemos Nando (Luca Bianchi), que de alguma forma ronda a vida das duas. Mesmo com a história entrecortada, o início do filme tem longas cenas de raves, que apesar das belas paisagens litorâneas, não chegam a empolgar muito. É na segunda parte, quando as histórias começam a ser costuradas, que o filme começa a ganhar ritmo.

Mais que o enredo que guia o filme, ou seja, a história entrelaçada dos protagonistas, que forma uma trama interessante, o longa abre espaço para uma rica discussão sobre a forma como as drogas, sobretudo as sintéticas, são tratadas na sociedade, e geralmente de forma bastante negligente.

O filósofo Michel Foucault escreveu sobre a história da sexualidade, investigando o comportamento histórico para desvendar os motivos que levam o tema a ser encarado com tanto tabu. Apenas para citar alguns tópicos, Foucault atribui a repressão sexual a alguns fatores econômicos, visto que para jornadas de trabalho que duravam quase vinte horas era importante que os trabalhadores não gastassem energia com mais nada. Aos poucos a interdição da sexualidade propiciou sua mercantilização, gerando lucro de diversas formas, tanto com a produção de material voltado para o tema, quanto com a criação da necessidade de apoio psicológico, para quem não conseguia controlar um desejo que supostamente deveria ser reprimido.

Fazendo um paralelo com o consumo de drogas, evidentemente restrito dado ao caráter instintivo da sexualidade, ainda que Foucault tenha apontado sua construção social, vemos no filme personagens jovens, que vivem nas festas e sem o menor compromisso com uma vida regrada e economicamente produtiva. Condiz com a preocupação de poupar energia dos trabalhadores do séc. XVIII, através da interdição sexual, as consequências do consumo de drogas que podem comprometer a força produtiva da população.

O desdobramento da proibição das drogas tem o potencial de criar um mercado paralelo, não apenas dos entorpecentes em si, mas também através de clínicas de recuperação, auxílio psicológico, combate ao tráfico, campanhas preventivas e uma série de outros processos, que somados movimentam grande quantidade de dinheiro, gerando uma verdadeira cadeia produtiva, economicamente invejada por boa parte dos produtores e comerciantes.

Toda essa pressão voltada para criminalizar o consumo de boa parte das drogas tem, entre outras, duas consequências fundamentais. Uma delas é, a exemplo da repressão sexual estudada por Foucault, a vontade de saber, ou seja, inevitavelmente cria-se uma curiosidade em relação aquilo que é proibido de forma negligente, sem muitas explicações e geralmente de maneira equivocada. Ao descobrir empiricamente que as consequências do uso de drogas podem não ser tão dramaticamente exacerbadas quanto à imagem socialmente criada, uma rede de usuários passa a criar uma contra imagem sedutora e atraente para aqueles que nunca utilizaram drogas.

A outra consequência é que a proibição implica em silêncio, e este em falta de conhecimento. Há uma infinidade de drogas sintéticas, cada uma com efeitos, consequências e dosagem particulares. Partindo do princípio que a simples proibição vem se mostrando historicamente insuficiente para coibir o consumo de entorpecentes, seria muito mais seguro explicar detalhadamente as características das novas drogas – sem a ideia absurda de que isso estimularia o consumo – do que vender a falsa imagem que a realidade muitas vezes desconstrói e deslegitima.

O próprio filme em questão corrobora a ineficiência da atual postura social diante de entorpecentes, já que, generalizando para não revelar detalhes do final da trama, mostra os perigos que evidentemente existem em relação ao consumo de substâncias potencialmente letais, mas também mostra que muitos dos riscos vêm da falta de conhecimento e que o consumo não é necessariamente um poço sem fundo rumo ao inferno.


terça-feira, 29 de maio de 2012

O Corvo (The Raven)



E o corvo, na noite infinda, está ainda, está ainda
No alvo busto de Atena que há por sobre meus umbrais
Seu olhar tem a medonha dor de um demônio que sonha,
E a luz lança-lhe a tristonha sombra no chão mais e mais,
E a minh'alma dessa sombra, que no chão há mais e mais,
Libertar-se-á nunca mais! 



Os escritos geniais de Edgar Alan Poe tiveram reconhecimento tardio. O grande responsável pela notoriedade do escritor foi Baudelaire, que ao traduzir as obras para o francês chamou a atenção dos fãs de literatura para a qualidade das obras, ricas em mistério, terror e criatividade. Com linguagem rebuscada, apesar de objetiva, Poe segue como autor ímpar em seu estilo, talvez sem tanto reconhecimento quanto merece.

Com personagens muito focados no aspecto psicológico, cujos distúrbios ou insanidades podem explicar muitos casos aparentemente sobrenaturais, os contos de Poe são pouco explorados no cinema. As histórias fantásticas já ganharam algumas adaptações, que costumam ser conhecidas principalmente entre os amantes do chamado cinema de arte. Este longa, do diretor James McTeigue, traz uma saída interessante para abordar a obra de Poe e dar notoriedade ao autor.

Inspirado nos livros, não há uma história adaptada, mas um roteiro de ficção formado pelo recorte de várias obras, mantendo o clima de suspense, investigação e uma pitada de terror, com a presença do próprio Edgar Alan Poe (John Cusack). É evidente que não há nenhuma pretensão de documentar a vida do escritor e mesmo as obras citadas são distintas do original, já que o terror de Poe, conforme citado, é focado no psicológico. No filme, por ter como guia um fã do autor que coloca em prática suas ideias mirabolantes, as cenas de terror são mais diretas e explícitas, o que evidentemente segue uma prática, sempre questionável e criticável, de seduzir os espectadores.

O que chama a atenção no longa é a transição existente na mente brilhante de Poe entre sua vida e sua obra. De fato as verdadeiras ações da vida do autor ocorreram majoritariamente em suas obras, relegando à realidade uma existência sofrida, bastante dura em todos os sentidos e, sobretudo solitária. A principal companhia de Poe eram mesmo seus personagens, que provavelmente viviam um duplo de sua própria personalidade. Meticulosos, detalhistas, calculistas e extremamente tensos em suas ações, tal qual seu criador.

Entre as várias histórias citadas no filme, algumas apenas com leves menções, como o incêndio que remete os fãs ao conto “O gato preto”, uma delas não é sequer citada, porém a essência do conto “Willian Wilson”, no qual um misterioso duplo do protagonista o persegue, vivendo como uma sombra misteriosa de seu próprio eu, pode ser identificada, ainda que não tenha existido a intenção desta analogia no roteiro. No filme, o assassino que tem como base as histórias de Poe – sem nome aqui, para não estragar nenhuma surpresa – pretende claramente seguir como uma espécie de duplo do autor, dando corpo à mente do escritor que possuía incrível capacidade de fantasiar a realidade, tornando-a fantástica, quem sabe com a intenção de uma fuga da própria vida angustiante que teve.

Ainda que o tipo de violência do filme seja muito mais explícito do que é sugerido nos contos, não chega a ser uma falha na adaptação, já que a fidelidade ao texto não era a intenção do filme. Seguindo a mesma mudança de literatura para cinema, o grande amor de Poe no longa é Emily Hamilton (Alice Eve), que apesar de manter o estilo angelical das descrições femininas do escritor, corresponde em parte às complexas histórias de amor, tanto dos escritos quanto da vida real de Poe. O escritor sempre permeou sua vida com amores platônicos, sendo que os poucos concretizados sempre acabaram por trazer mais sofrimento à sua difícil vida. Nas obras é possível encontrar personagens mais próximos a Emily, que pode até corresponder ao amor, mas de forma alguma chega a ser factível.

Para unir os diversos elementos trazidos às telas, há o detetive Emmett Fields (Luke Evans), uma versão do personagem August Dupin, que por sua vez representa toda a meticulosidade de autor. Não tão ativo no filme, Fields tem seu trabalho complementado pelo próprio personagem de Poe no desfecho do mistério central da obra, o que também aproxima mente e corpo, pois Dupin traz muito de seu criador e é uma tradução muito clara do estilo de vida que, baseado na contemplação do que o cerca, tira conclusões precisas e encantadoras.

A produção de McTeigue pode ser criticada por muitos aspectos, sobretudo pela tentativa exagerada de tentar dar um verniz moderno a uma obra que retrata meados do séc. XIX, porém a ideia de colocar o escritor em contato com suas próprias obras, fazendo uma espécie de ponte entre o que Poe vivia e escrevia, é bem interessante. O desfecho que cria uma versão para a morte do escritor é apenas uma parte da trama, afinal Edgar Alan Poe morreu em circunstâncias muito menos misteriosas do que tentam nos passar. Um período mais difícil que o normal culminou no consumo excessivo de álcool, levando a um coma alcoólico nas sarjetas de Baltimore. Como toda sua vida, o desfecho foi bem menos romântico que o de suas obras.


terça-feira, 15 de maio de 2012

Shame


O protagonista Brandon (Michael Fassbender) é o estereótipo do estilo de vida moderno em grandes cidades. Vivendo sozinho em um apartamento de Nova York, ele tem um bom emprego, sem grandes laços afetivos e permeia suas atividades cotidianas com sexo, virtual ou real, porém mantendo distância de relações duradouras.

O diretor Steve McQueen consegue criar um conflito muito interessante em seu longa quando Sissy (Carey Mulligan) aparece de repente para morar com o irmão Brandon. A partir de então o personagem passa a enfrentar um embate gerado pela diferença de suas atitudes em relação ao que espera da irmã. Entre o instinto de aproveitar a liberdade para conquistar o maior número de mulheres possível e a pressão social de cultivar relações estáveis e duradouras, o filme transita da tradição familiar ao estilo moderno de incluir o sexo de forma descompromissada no dia-a-dia, geralmente criticado por quem esconde atrás do moralismo sua vontade de adotar esse estilo.

É possível ver no comportamento de Brandon algumas teorias do antropólogo Lévi-Strauss, segundo o qual, resumindo ao extremo, a proibição do incesto obriga a troca de mulheres entre os homens. A afirmação deixa de ser machista quando é lançada para a compreensão de comportamentos primários da vida em sociedade, dos quais não nos livramos totalmente. Assim sendo, o protagonista busca mulheres fora de seu círculo, ideia que acaba sendo reforçada pelo fato de ser um irlandês que mudou para os E.U.A. deixando a família para trás.

A presença da irmã, com a qual o relacionamento é proibido, indica a possibilidade de relacionamento para outra pessoa – por isso a troca de mulheres – ainda que com a mesma falta de compromisso com a qual Brandon encara seus relacionamentos relâmpagos. O problema é que lado a lado com essa premissa existem os padrões sociais desenvolvidos ao longo da história, e ao personagem não lhe agrada ver a irmã fora dos padrões morais que ele não quer para si.

Bem longe de esclarecer seus conflitos internos, o protagonista passa a não suportar a pressão dessa incoerência, desenvolvendo uma vergonha (shame) não de seu julgamento em relação à irmã, mas de seu próprio comportamento sexual. Isso faz com que o título do filme seja bastante questionável, por indicar que o problema do filme seja a suposta compulsão do personagem, uma patologia que não existe clinicamente, mas socialmente, graças aos moralistas mencionados acima. Ainda que a vergonha em questão apareça pela percepção de que a irmã pode ser tratada da mesma forma com que ele trata outras mulheres, há o machismo de acreditar que a falta de compromisso seja um desejo exclusivamente masculino.

Certos cuidados podem ser indicados para as atividades de Brandon, como por exemplo, não inundar o computador do escritório com materiais pornográficos, para não comprometer sua vida profissional, ou ainda se ater a certos limites quando a garota que desperta sua atenção está acompanhada, se tornando um grande problema em potencial, mas mesmo assim seu comportamento não destoa de seu estilo de vida, podendo tranquilamente ser mantido sem consequências negativas, desde que fizesse pequenas mudanças em seu cotidiano, a partir do momento que não estava mais morando sozinho e algumas mudanças, dessa vez bem mais profundas, em sua forma de encarar os padrões sociais.

Era quase inevitável a Steve McQueen cair no nó atado entre tradição e modernidade. A opção fica em relação ao caminho a seguir a partir deste ponto. É possível aceitar a vergonha como uma imposição sem lógica, para assim superá-la e assumir que a presença da sua irmã não destrói seu estilo de vida, ou dar um verniz moderno ao romantismo do século XVIII, impondo uma forma de vida que limita e inibe.

Obrigar alguém que, como Brandon, está habituado a um estilo de vida condizente com a cidade de Nova York – ou qualquer outra grande cidade – a voltar a viver segundo preceitos tradicionalistas é optar por insistir em negar possibilidades, pois ainda que o comportamento sexual do protagonista não seja obrigatório em nenhum lugar do mundo, sua opção é viável e distante de qualquer patologia, culpa ou vergonha. Ajudar a irmã, ou ser ajudado por ela, dependendo do momento pelo qual cada um está passando, não implica em impor mudanças ou coibir desejos, mas sim em tolerar comportamentos e libertar-se de padrões tão válidos quanto desnecessários.


quinta-feira, 3 de maio de 2012

Um método perigoso (A dangerous method)


O diretor David Cronenberg traz às telas sua versão para a obra de Christopher Hampton, que mostra um pouco da genialidade de Sigmund Freud (Viggo Mortensen) e Carl Jung (Michael Fassbender), cuja aptidão para compreender os enigmas da mente humana não impediu que a vaidade e preciosismo de ambos se tornassem empecilho para o desenvolvimento das pesquisas na área da psicanálise.

É notória a dificuldade de aplicar o rigor de um método científico sobre um objeto tão multifacetado quanto à psique humana. Por mais que a epistemologia defina certos limites e regras, o próprio pesquisador está sujeito a surpresas, tanto provenientes do paciente quanto de seus próprios sentimentos, que podem fugir do controle – nem sempre de forma perceptível – fazendo com que as mais brilhantes mentes fiquem suscetíveis aos imprevistos.

Desta forma Sabina Spielrein (Keira Knightley) ganha destaque na história (da psicanálise, portanto do filme), ao se tornar primeiramente paciente de Jung, para depois contrariar toda metodologia do psicanalista e vir a ser sua amante. Cada personagem do filme mereceria um longa com a própria história e Sabina não é diferente. A começar pela atuação impecável, capaz de encenar toda a angústia, desespero, medo e insegurança da personagem, que nos faz pensar sobre algumas posturas atuais diante de pessoas com supostas patologias.

O tratamento de Sabina, que se mistura com experiências para as teorias de Jung, consiste a princípio de atenção e respeito. Não há grandes intervenções por parte do psicanalista além de dar ouvidos aos relatos angustiados de sua paciente e encarar seus desabafos com a clareza de quem enxerga um potencial de cura, ao invés de menosprezo a um problema que, para quem não o tem, pode parecer menor. Pode ser uma conduta elementar, não somente para quem cuida de um paciente, mas para qualquer um que ouça um relato, mas a prática nem sempre é tão evidente, sendo que problemas negligenciados são mais frequentes do que possa parecer.

Por parte de Freud e Jung é interessante notar os debates sobre a gênese de uma teoria psicanalítica, em uma fase em que esta área ainda não havia sido inundada pela indústria farmacêutica, prometendo remédios milagrosos até mesmo para males que não necessitam de intervenções químicas.

A beleza da ciência desenvolvida e tão bem apresentada no filme é que seus estudos inevitavelmente caminham no incerto. É necessário vagar pelo estreito e tortuoso caminho formado entre a lucidez e a loucura, lidando com a tendência inconsciente dos pacientes de manipular certos sintomas, além do próprio olhar possivelmente viciado do psicanalista, que deve ser dominado.

Como se toda essa dificuldade não fosse suficiente, as inúmeras variáveis contidas em cada indivíduo ainda estão imersas em um contexto social, fundamental na constituição da personalidade e com um potencial enorme para agravar certas tendências de comportamento, ou seja, determinadas vontades e desejos podem não ter nada de patológico, mas por ser algo socialmente recriminado, qualquer um pode acreditar piamente em um distúrbio pessoal e até mesmo agir no sentido de corroborar esta crença.

Desfazer esse emaranhado de influências, que podem causar sérios danos ao paciente, nem sempre é tarefa fácil. Ainda que para quem analise um paciente a solução de seus problemas seja simples, quem vive em meio ao caos dos próprios problemas costuma oferecer grande resistência às mudanças; em outros casos os sinais fornecidos pelos pacientes e passíveis de análise são complexos e confusos para o psicanalista.

Jung, a quem o filme dá mais destaque, via em Freud uma grande fonte de saber e alguém em quem se espelhar; ao menos até ganhar notoriedade no meio acadêmico e ser tocado pela vaidade da própria fama. Já Freud reconheceu logo, no jovem que buscava auxílio, um sucessor para suas teorias, pois já fazia ideia do impacto de suas ideias sobre a psicologia. O trabalho em conjunto, recorrente entre os profissionais que frequentemente precisam de uma segunda opinião sobre determinado caso, tinha tudo para ser extremamente produtivo e benéfico, porém as mesmas influências que agem sobre a psique de um paciente atuam também sobre os analistas, tendo a vaidade um grande potencial de destruição.

Difícil dizer quanto o rompimento dos dois pesquisadores influenciou na psicanálise, mas ao longo da história não faltam exemplos de mentes brilhantes que esbarraram no próprio ego. Entre erros e acertos do método exibido no filme fica a sensação de algo talvez perigoso, pelos percalços exibidos, mas também a admiração pelo esforço do desenvolvimento de um trabalho psicanalítico livre de medicamentos, cuja eficiência costuma ser duvidosa, e baseado na atenção e respeito aos relatos dos pacientes, fato que nem sempre vemos nos consultórios de hoje.


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