terça-feira, 28 de julho de 2015

Jauja

A história deste longa é bastante simples, mas tem a capacidade de instigar muitas reflexões. Basicamente um pai (Viggo Mortensen) parte da Dinamarca com sua filha (Viilbjørk Malling Agger) em busca de Jauja, um paraíso mítico, cercado de mistérios.

Contrariando a expectativa de uma vida perfeita almejada pelo pai, a menina foge com um soldado que conheceu e por quem se apaixonou no caminho. A partir de então a meta do pai passa a ser encontrar a moça, para isso ele parte em uma jornada solitária e longa, na qual o papel do ator ganha destaque, já que na ausência de diálogos a atuação deve transmitir emoções e ações de forma mais clara.

Os elementos da trama não são novos, mas rearranjados com competência pelo diretor Lisandro Alonso. A busca por uma terra livre de problemas é constante na história; no ocidente cristão ela existe desde que Deus expulsou os homens do Éden, condenando a humanidade a viver fora do paraíso.

A dúvida que fica neste ponto do filme é quanto ao que seria feito pelos homens em uma terra supostamente paradisíaca. No plano individual todos se julgam aptos para viver na terra prometida, deixando para trás aspectos de nosso cotidiano dos quais não sentiríamos nenhuma saudade.

Porém o que vemos no filme são soldados treinados e impiedosos nas batalhas buscando uma terra que seja pacífica. Não é necessário ser um grande historiador para saber que não existem terras com ou sem problemas, eles se desenvolvem de acordo com as relações pessoais de seus habitantes. Um desenrolar quase previsível de um novo local subitamente habitado pelos soldados do filme seria a reivindicação de um exército para proteger a sociedade de possíveis invasores, a partir daí é gerado uma classe poderosa e dominadora, que desestabiliza todo o equilíbrio harmônico que se espera de moradores de um lugar tão idealizado.

Pela quantidade de lendas sobre terras prometidas e lugares míticos, cujo simples acesso garantiria uma vida perfeita, é notável que coletivamente esquecemos o potencial que temos desperdiçado ao longo da história ao encontrarmos terras com grandes chances para uma sociedade senão perfeita, ao menos aceitável.

Já contamos com uma bagagem cultural que deveria ser suficiente para percebermos nossa responsabilidade – as vezes individual, as vezes coletiva – nos problemas do local em que vivemos, portanto mais eficiente que migrar para uma terra perfeita, seria investirmos na melhoria da sociedade de forma igualitária, para que possamos nos aproximar de uma vida tranquila e com menos problemas.

No filme a prova de que o ideal de terra perfeita é muito particular, portanto inviável para uma sociedade, vem do próprio núcleo familiar do protagonista, ainda que ele viaje somente com a filha.

É de se esperar que uma adolescente tenha um ideal de felicidade muito distinto daquele que seu pai planeja, desta forma a menina foge com um dos soldados fazendo com que o pai desista da procura por Jauja e passe a ter como única meta reencontrar a filha.

O que fica claro depois da jornada do pai é que uma terra paradisíaca, independente do nome que seja dado, seria a materialização de um sonho pessoal. Cada um teria sua própria terra dos sonhos, de forma que em essência seria muito tênue a diferença entre a Jauja do filme e a Terra no Nunca, que materializa a perfeição idealizada por uma criança.

A viagem do protagonista é longa e intensa. Acompanhamos de perto as angústias e apreensões do pai, o que faz com que o filme seja longo. Talvez pudesse ser um pouco mais curto, porém essa é uma característica necessária ao drama. Seu tempo é diferente de uma comédia, que pede cenas curtas e dinâmicas. É acompanhando os detalhes da personagem do filme que sentimos mais diretamente as emoções que precisamos absorver da obra.

Como dito no início, a história do filme é simples e com poucos elementos, somado a isso temos um filme longo, que nos proporciona pensar bem em cada detalhe apresentado na história. Vale a pena considerarmos a viabilidade da ideia de buscar uma terra distante, que deixe para trás os problemas e nos ofereça uma vida livre de preocupações. Vemos que os problemas existem em qualquer lugar e talvez seja mais eficiente pensar em nossa atuação no próprio local em que vivemos do que sonhar com terras oníricas.


terça-feira, 14 de julho de 2015

5x Favela - Agora por Nós Mesmos

Este longa recicla uma ideia da década de 60. Na época foi extremamente original e condizente com a proposta do Cinema Novo juntar cinco jovens cineastas para realizarem um longa-metragem composto por histórias encenadas em uma favela. Hoje, com o desenvolvimento de equipamentos mais versáteis e com a redução dos custos de produção, ficou mais fácil formar novos profissionais e diversificar a produção cinematográfica.

Assim, ao invés de levar cineastas formados em universidades para gravar em uma favela, os próprios moradores locais passaram por um treinamento, do qual os melhores foram selecionados para produzir um longa no mesmo formato de seu antecessor, com cinco histórias distintas, que desta vez ficaram a cargo dos moradores.

Existe uma diferença clara de intenções nos dois filmes. Enquanto o primeiro vem com um tom de denúncia e parece tentar evidenciar uma realidade não tão conhecida da luta de classes, o segundo tem um viés de desconstrução de preconceitos, mostrando os problemas de uma favela – alguns deles bem graves – mas com exceção de uma das histórias, vemos os moradores como pessoas que acima de tudo lutam pelo próprio bem-estar.

Cabe ressaltar que as escolas de samba, que possuem papel de destaque em histórias do primeiro filme, sequer aparecem no segundo. Parece que hoje funcionam de forma mais profissional, distante das raízes orgânicas dentro da favela, com capacidade de unir moradores em torno de uma paixão em comum.

No filme mais novo o tema que pegou o lugar das escolas de samba foi o tráfico. Se há pouco mais de quarenta anos as favelas eram bem menores, com população restrita e consequentemente mais fácil de ser assistida pelo governo, a crescente concentração de renda na sociedade e o descaso dos governantes transformaram pequenas favelas em verdadeiras cidades, com funcionamento quase independente do restante da cidade.

É claro que o morador de uma favela é um cidadão como outro qualquer. Deve, portanto, obedecer às mesmas leis e ser protegido por elas, assim como os moradores de qualquer outro bairro. O que o filme acaba nos mostrando é que essa relação nem sempre é válida e muitas vezes os deveres dos moradores não vêm acompanhados de direitos básicos.

As leis são um conjunto de regras que se encaixam em determinado espaço e tempo, por isso cada país tem as suas e algumas mudanças são necessárias de acordo com alterações naturais da sociedade. Uma das vantagens de uma sociedade mais homogênea, sem uma discrepância econômica tão gritante que interfira na qualidade de vida de seus cidadãos, é que as leis acabam sendo mais justas para todos.

No Brasil a legislação, estabelecida pela elite, sofre dois problemas gravíssimos. Um, não abordado diretamente nas histórias do filme, é a existência de uma classe tão rica e poderosa que pode influenciar decisões judiciais. Outro, esse sim muito mais evidente, é que as leis aplicadas de forma igualitária não garantem justiça em uma sociedade tão multifacetada.

É evidente que a solução para problemas vividos pelos personagens do filme não está na flexibilização da legislação para adequá-la à realidade social, nem em tolerar delitos de acordo com a situação econômica de quem os comete. Entretanto, é muito claro que algumas barreiras são praticamente intransponíveis para aqueles que lutam por uma subsistência bastante precária.

Um dos personagens do filme consegue passar no vestibular, mas depois não tem dinheiro para pagar a passagem e ir para as aulas; outro sai de manhã e volta a noite todos os dias, enfrentando uma longa jornada de trabalho para conseguir comprar somente arroz e feijão; o tráfico é presença constante que influencia na vida dos moradores desde a infância. Esses e outros problemas comprometem a vida de qualquer um, mas estão ausentes nas camadas sociais mais elevadas.

O que os moradores que produziram o filme nos mostram é uma visão interna que não se baseia na vitimização. Os problemas não chegam a ser usados como escudo para uma vida de resignação, mas sim como dificuldades a serem superadas de uma forma ou de outra.

Muitas atitudes do filme podem ser questionadas, algumas são, pelo rigor da lei, passíveis de punição, mas a ideia do filme é exatamente mostrar o cotidiano da vida na favela pela visão dos próprios moradores, ao invés de uma visão externa e estereotipada. Vendo de perto os problemas ganham outra dimensão, que geralmente está distante das áreas mais nobres da cidade.


terça-feira, 7 de julho de 2015

Hector e a procura da felicidade (Hector and the Search for Happiness)

A medicina não é uma ciência exata. Enquanto alguns casos precisam de apenas um comprimido outros devem ser analisados com muito cuidado para a obtenção de um diagnóstico eficaz. Entre esses casos a psiquiatria tem um papel bastante particular.

Encontrar um psiquiatra nem sempre é fácil. Não basta o profissional ter uma boa formação e competência, pois é necessário estabelecer um vínculo muito específico entre médico e paciente. É comum que um psiquiatra extremamente renomado não consiga estabelecer uma relação satisfatória com determinado paciente.

Porém o que acontece nesse filme do diretor Peter Chelsom é que o protagonista Hector (Simon Pegg) não tem conseguido bons resultados com nenhum de seus pacientes e começa a desenvolver questões mais profundas sobre sua própria existência. Suas dúvidas sobre o que é a felicidade e qual o caminho pelo qual deve guiar seus pacientes começam a ficar incontroláveis.

A própria vida particular de Hector já daria uma ótima análise psiquiátrica. Casado com Clara (Rosamund Pike), o casal seguia uma vida linear e aparentemente isenta de problemas, mesmo com Clara fazendo por vezes um papel mais parecido com o de mãe do que com o de esposa. O que fica explícito desde o início é que a felicidade não se resume à ausência de problemas.

Cansado do cotidiano insólito de seu consultório e em busca de uma resposta mais concreta para o que é a felicidade, o psiquiatra parte sozinho para uma viagem pelo mundo. Clara não se opõe e até, como sempre, ajuda o marido em tudo o que está ao seu alcance. Mas para quem até então tinha uma vida constante ao extremo, uma súbita ruptura causa transtornos inevitáveis.

Com o caderno de anotações que ganhou de Clara, Hector parte para a China e visita um monastério, depois viaja para um povoado muito pobre e violento na África para encontrar um amigo médico e de lá vai para Los Angeles, onde encontra uma antiga amiga, por quem era apaixonado.

É claro que o filme não dá uma resposta sobre o que é a felicidade, até porque a dúvida é antiga e nunca se chegou a um consenso. Apesar disso Hector passa por uma série de situações inusitadas e cômicas, nos mostrando nas entrelinhas alguns detalhes que aparecem em nosso próprio cotidiano, geralmente com formas distintas, para que prestemos atenção em tudo o que nos cerca e tiremos algumas conclusões particulares.

Os destinos do personagem não foram aleatórios, ele poderia, ao invés de ir para cantos distintos do mundo, fazer uma viagem pelos países europeus, tudo muito mais prático, porém mais homogêneo. Entre uma grande cidade chinesa e seu distante monastério, um vilarejo na África e a Los Angeles que é quase uma referência do estilo de vida americano há muito pouco em comum.

Com tantas diferenças não dá para imaginar que a resposta sobre o que é felicidade seja a mesma em todos os cantos. Estamos acostumados com um estilo de vida padronizado, consumimos os mesmos produtos, seguimos os mesmos horários, assistimos aos mesmos programas. Talvez este seja o pior legado do imperialismo. A imposição de um padrão único de vida para todos, no mundo inteiro, suprime individualidades e dissemina um padrão, independente de qualquer fator local.

Hector vai aos poucos preenchendo seu caderno com ideias e frases que tentem resumir sua procura pela felicidade. Algumas frases escritas servem somente para uma pessoa, outras são amplas e de interpretação variável, portanto servem para quem quiser interpretá-las de forma conveniente, às vezes uma ideia que remete à felicidade é incompatível com a vida matrimonial.

Talvez o ponto em comum entre as anotações de Hector seja exatamente a felicidade que se pode extrair daquele momento específico. Quando a conjetura mudar e a situação vivida for outra caberá ao protagonista, ou quem quer que seja, encontrar um sentido e um caminho que leve a um sentimento feliz, sempre disposto a aceitar que momentaneamente esse caminho pode não existir. Ninguém é feliz o tempo todo e saber lidar com os momentos difíceis é uma etapa importante da busca de Hector.

O conceito de felicidade é múltiplo, cada pessoa tem sua própria ideia individual e variável, relacionada diretamente com as experiências pelas quais passa ao longo da vida. Ainda que não seja expressa de uma forma evidente, essa parece ser a lição que Hector aprende e talvez tente levar aos seus pacientes. De fato, um psiquiatra que chegue com conceitos prontos para todos os pacientes não parece mesmo muito bem preparado.


terça-feira, 23 de junho de 2015

Pecados do meu pai (Pecados de mi padre)

O diretor Nicolas Entel aborda um tema delicado com seu documentário. A obra é baseada em arquivos de família, que retratam a vida de Pablo Escobar, o famoso chefe do cartel de drogas da Colômbia. Entrevistando seu filho, Sebastian, e sua mulher, Maria Isabel Santos, a ideia parece ser desconstruir parte do mito que envolve o nome de Pablo Escobar e mostrar um pouco do que há por trás do tráfico de drogas.

Apesar de ser uma produção colombiana e ter como foco a sociedade local, a história da América Latina como uma grande colônia de exploração é sempre muito próxima, sendo replicada em vários países de forma semelhante. A despeito das particularidades sociais e da riqueza cultural da região, a exploração sempre se deu de forma impiedosa.

Os grandes ciclos de exploração, ou seja, do ouro, da prata, do açúcar, do café, da borracha, etc., sempre renderam fortunas meteóricas para poucas pessoas, que se mantém no poder há décadas, por vezes há séculos quando uma análise histórica mais apurada é feita. O que fica para trás é uma legião de pessoas pobres, sem recursos e sem assistência por parte do estado.

Desamparados, sem emprego e sem dinheiro, essas pessoas não possuem a capacidade de desaparecer. Assim como no Rio de Janeiro ou São Paulo, onde favelas maiores que muitas cidades são criadas, Bogotá sofre com os efeitos da superpopulação aglomerada e carente de recursos.

Tudo isso para chegar ao ponto chave do tráfico de drogas. Não é por acaso que a espinha dorsal do tráfico reside na América do Sul. Ter clima e solo favoráveis para a produção das drogas é um fator de peso, assim como políticas ineficientes no combate ao tráfico, contando com o auxílio de autoridades que nos bastidores trabalham em conluio com traficantes. Porém é nas grandes cidades que o tráfico trabalha quase livremente, atuando em lacunas do Estado.

Não se trata de defender o tráfico ou atenuar os problemas sociais causados por ele. O próprio documentário deixa claro o terror imposto à população e a forma impiedosa com que os líderes do tráfico tratam seus adversários. Curiosamente boa parte da população, sem perceber, apoia as ações impiedosas quando são postas em prática pelas autoridades policiais, como se uma farda descaracterizasse o crime.

Semelhante às facções criminosas brasileiras, Pablo Escobar liderava um cartel que arrecadava cifras milionárias, suficiente para que sua família não tivesse mais onde gastar o dinheiro, sobrando um dividendo suficiente para levar às comunidades que abrigavam pontos de tráfico serviços de saúde, lazer, educação, nunca antes vistos. Esta não é a solução para os moradores locais, pois são serviços ilegais e permeados por diversos problemas. Ainda assim são suficientes para criar entre a população local e o chefe do tráfico uma identificação inexistente entre população e Estado.

Assim como a origem histórica da violência e do tráfico de drogas é a mesma em diversos países, a tentativa desastrosa de combate também é compartilhada. Ou seja, após retratar exaustivamente na mídia quem são os vilões do tráfico, a única ação gira em torno de eliminá-los prendendo ou matando, deixando as lacunas de serviços básicos sem a devida assistência.

Não é o foco do documentário abordar como deveria ser a postura do Estado diante do tráfico. O filme acaba sendo até simplista em colocar Sebastian como exemplo a ser seguido, dado que poderia ter herdado o cargo do pai, mas preferiu sair da Colômbia para salvar a própria vida e se afastou de qualquer ligação com o tráfico. O que cabe lembrar aqui é que os problemas sociais são mais profundos do que a visão maniqueísta tem a nos oferecer.

Em geral olhamos para o problema do tráfico como uma engrenagem defeituosa na sociedade, portanto bastaria retirar essa engrenagem personificada nos chefes do tráfico e tudo voltaria a funcionar normalmente. O problema é que retirando os traficantes – medida realmente necessária – o terreno fica livre para a atuação de outras ilegalidades.

A população maltratada, seja através da violência física por parte de policiais despreparados, seja através da violência simbólica por parte da falta de infraestrutura estatal, é uma porta aberta para novos chefes do tráfico. Atacar apenas um tipo de violência significa manter o eterno ciclo de poder, em que o tráfico tem status de protagonista, sendo na verdade coadjuvante da concentração de renda e exploração histórica de toda a América Latina.


terça-feira, 16 de junho de 2015

A incrível história de Adaline (The Age of Adaline)

Uma mulher que com pouco menos de trinta anos para de envelhecer e mantém a mesma aparência mesmo tendo vivido mais de cem anos. Essa ficção bastante metafórica é o pano de fundo para o filme do diretor Lee Toland Krieger.

A princípio parece ser o sonho de qualquer um. Balzac, autor do livro “A mulher de trinta anos”, define esta idade como sendo basicamente o ponto médio entre o ápice do intelecto e o ápice do físico da mulher. Imagine manter o ápice do físico e seguir aprimorando o intelecto por décadas.

Pensando na sociedade contemporânea, onde a manutenção da jovialidade ganha um status quase obrigatório, a vida da protagonista Adaline Bowman (Blake Lively) poderia se tornar ainda mais perfeita, mas evidentemente que aos poucos Adaline começou a lidar com os problemas da juventude eterna.

O desenrolar da história é um tanto óbvio. Com o passar dos anos as pessoas começam a estranhar o fato da moça não envelhecer nem um pouco, ainda mais em meados do século XX, sem botox ou uma indústria de cosméticos tão desenvolvida. Insegura sobre como lidar com a situação e com medo de como seria tratada caso a verdade fosse descoberta, o jeito era desaparecer de tempos em tempos e iniciar uma nova vida em algum local desconhecido.

Pode parecer sedutor. De vez em quando virar uma página da vida e começar tudo outra vez, mais experiente, moldando a vida de acordo com um ideal. O problema vem em longo prazo. Adaline não podia manter laços afetivos duradouros nem fixar raízes nos lugares que gostava. A exceção era a filha, que na história contemporânea já era apresentada como avó.

Deixando um pouco o passado da personagem e o ambiente onírico, conseguimos imaginar algumas críticas pertinentes do filme a um modo de vida bastante comum, não apenas em relação à aversão ao envelhecimento.

Em um mundo no qual todos devem transformar a vida em um livro escancarado e cada nuance da vida deve ser exposta, Adaline não podia sequer tirar uma foto, mesmo na época pautada pelas selfies, em que inúmeras ferramentas são oferecidas para que possamos expor tudo o que vivemos, do fato mais interessante ao que deveria ser muito bem guardado dentro de cada indivíduo.

Claro que mesmo em tempos de redes sociais, todos nós temos a opção de não aderir ao estilo extremamente exposto e nos mantermos mais reservados, distantes do mundo digital. Por mais que a tecnologia avence, ainda é possível manter ao menos no plano individual certa reserva.

O problema é que essa forma de exposição tem extrapolado os limites virtuais e se estendido para uma forma de vida muito mais ampla. Relacionando com o período do filme, ao longo do século passado era condizente um estilo de vida mais reservado, até pela forma de organização social. A maioria das pessoas trabalhava em linhas de produção nas quais a conversa entre funcionários sequer era bem-vinda. Era mantido um contato com poucas pessoas mais próximas e com os familiares.

Hoje essa realidade é muito diferente. O mercado de trabalho é muito mais dinâmico e as pessoas mais valorizadas são aquelas que se expressam, que chamam a atenção e se tornam marcantes por onde passam. Com algumas exceções, esse é o perfil selecionado nas dinâmicas de grupo, o estereótipo valorizado como exemplo e referência.

O comportamento dos ambientes corporativos acaba sendo estendido para as relações pessoais e familiares, formando então uma realidade bem diferente daquela vivida há algumas décadas. O fator econômico também influencia em relação à maior possibilidade de mobilidade social.

Se Adaline dissesse, na década de 60, que tem um emprego em determinada indústria e pretende seguir dessa forma até a aposentadoria, o mais provável é que todos aceitassem isso como normal – até que a moça desaparecesse por seus motivos pessoais. Hoje uma carreira deve ser construída desde cedo. É impensável permanecer muito tempo em um mesmo emprego e isso implica em falar sobre experiências passadas, planos, metas, vivências e expor a própria vida de uma forma que Adaline não poderia se adequar.

O filme não entra explicitamente no conflito de comportamento gerado pelas diferenças de gerações. O foco principal está mesmo na angústia de viver diversas vidas, sem criar raízes, mas é pertinente pensarmos o quanto a valorização do passado do indivíduo ganha destaque.

Alguém que não se mostre extremamente transparente quanto ao que já viveu ou ao que ainda pensa em viver não é bem visto. Não importa se o comportamento reservado seja devido a algo que não quer compartilhar ou simplesmente uma opção de vida. Somado às mudanças sociais citadas, o imediatismo que marca nosso atual estilo de vida torna cada vez mais difícil um olhar que busque mistérios e suas soluções, ainda que em pequenos fatos cotidianos.


terça-feira, 9 de junho de 2015

Casa Grande

A relação entre casa grande e senzala, onde o proprietário de terras morava com sua família na sede da fazenda e comandava centenas de escravos, habitantes das senzalas, existiu durante a maior parte da história do Brasil. Formalmente não existe mais. A organização social que formava quase um feudo, mais cruel que os originais europeus, não seria viável após a abolição da escravatura.

Porém o que vemos nas ruas, e agora nas telas com o longa do diretor Fellipe Gamarano Barbosa, é que os elementos dessa estrutura não existem, mas seus símbolos seguem pautando nossa sociedade de forma muito intensa, minando um desenvolvimento social que seria benéfico para todo o país, inclusive para aqueles que exploram, mas sem dúvida principalmente para aqueles que há cinco séculos sofrem com a exploração.

O enredo guarda certa semelhança com o livro “Amar, verbo intransitivo”, escrito por Mário de Andrade em 1927, com uma família de classe média-alta, com muito mais dinheiro que cultura, perpetuando preconceitos e desigualdades. Diferente do livro, que mostra a ascensão da elite paulistana, o filme retrata a alta sociedade carioca, através da família de Hugo (Marcello Novaes).

Como qualquer investidor de risco, quando ganha dinheiro com as oscilações da bolsa sem produzir absolutamente nada, Hugo fala em mérito; quando perde, como de fato ocorre, culpa o governo e as críticas se estendem aos programas sociais. É muito cômodo, para aqueles que vivem de renda, criticar programas supostamente voltados para quem não trabalha, o problema admitir que uma posição favorável na escala social facilita muito a própria vida.

O contraponto social da família de Hugo é apresentado pela parte relativa à senzala, ou seja, os empregados da família. Com a crise econômica que atinge a família, o primeiro a ser sacrificado é o motorista Severino (Gentil Cordeiro), mas para o filho Jean (Thales Cavalcanti), que tinha mais contato com o motorista, os pais alegaram que ele tirou férias.

Jean é o personagem central do filme, que converge as influências da família e dos empregados, de quem acaba sendo bem próximo, de uma forma ou de outra. É em quem os pais depositam suas esperanças – a despeito da filha mais nova, que costuma ser ignorada, como uma nuance que indica o tradicional machismo – e depositam também seus medos.

Após a demissão do motorista resta ao jovem ir de ônibus para a escola, o que é visto como sinônimo de terror para os pais. Chega a ser patético os pais dando instruções sobre onde descer e qual caminho tomar, como se estivessem falando com uma criança. Este medo faz parte da estrutura social. De forma inconsciente, os preconceitos disseminados só podem ser mantidos quando os fatos não desmascaram as ideias.

Tanto entre os empregados quanto no pouco contato que Jean tem fora de seu círculo pessoal, ele vê qualidades muitas vezes inexistentes em seus próprios pais, sempre com uma preocupação desmesurada com sua segurança e intervenção direta em sua futura escolha profissional. Cultivar o medo do desconhecido e fomentar a segregação social é uma maneira de sustentar o já citado discurso contra medidas sociais do governo e contra qualquer forma de reduzir, ainda que de forma tímida e insuficiente, o abismo social de nossa sociedade.

O discurso da família é o mais tradicional possível. Alegam que todos conseguiram crescer profissionalmente com os próprios méritos e não acham justo que pessoas tenha a vida facilitada por cotas. Mais do que rebater diretamente essa ideia rasa, o filme mostra as diferenças sociais, provando que o argumento da família não se sustenta.

Ainda que quando comparado ao ápice do conforto a família esteja passando por uma dificuldade econômica, a situação ainda é muito mais favorável que, por exemplo, a das famílias de seus próprios empregados. Todo o capital social, as referências profissionais e as condições de estudo de Jean o colocam vários degraus acima dos filhos dos empregados. O mesmo raciocínio extrapola os limites do filme e se estende para uma infinidade de exemplos reais, que podemos conferir apenas olhando pela janela.

Os problemas pessoais de Jean, ou mesmo as temporárias dificuldades econômicas de sua família, não devem ser desprezados, mas seria muita discrepância tentar usar os conflitos de um adolescente ou os supostos esforços pessoais de Hugo, que não chegam sequer a serem comprovados, como argumento contra qualquer medida que busca um mínimo de equidade social.

O que vemos no filme é que a casa grande, ou a classe que metaforicamente é representada por ela, segue no comando e continua impedindo, por meios mais sutis que a escravidão institucionalizada, uma imensa massa subjugada de ascender socialmente.


terça-feira, 26 de maio de 2015

De menor

Direito não é uma ciência exata. Por mais que, em tese, a lei seja igual para todos, a figura do juiz é indispensável na hora de analisar os fatos e aplicar a sanção cabível à situação, supostamente de forma imparcial e isenta de preconceitos. Assim, quanto mais uniforme a sociedade, mais fácil a ação penal, já que os juízes têm menos margem de interpretação.

Este longa da diretora Caru Alves de Souza mostra bem como uma sociedade heterogênea ao extremo como a nossa acaba proporcionando situações em que as leis ficam bem distantes da imparcialidade que deveriam ter.

A jovem advogada Helena (Rita Batata) defende menores infratores, se esforçando para que a lei seja cumprida. O papel do advogado não deveria ser esse. Em um sistema judiciário confiável, não seria necessário alguém atuando de forma enfática para que direitos constitucionais básicos sejam cumpridos, mas, trabalhando na ponta do iceberg, Helena acaba intervindo em uma área muito maior do que deveria, na tentativa de buscar um pouco de justiça no meio de aplicações tendenciosas da lei.

Um contraponto da situação social dos menores que ela defende é seu próprio irmão, Caio (Giovanni Gallo). Órfãos, ambos vivem uma cumplicidade muito grande, característica de quem, além dos laços familiares, vê no irmão um adolescente como os que são defendidos por ela.

Quando a forte ligação dos dois irmãos é abalada pela suspeita de um crime cometido por Caio, as atuações profissionais serão postas em xeque. Para o juiz Carlos (Caco Ciocler) não deve haver diferença entre Caio e os demais menores julgados, assim como para Paulo (Rui Ricardo Diaz), promotor que costuma analisar os casos de forma muito mais rigorosa que Helena.

Evidenciar as discrepâncias entre os menores infratores pobres, sem amparo familiar, estereotipados como criminosos e o jovem branco, que possui parentesco com a advogada é indispensável, sobretudo diante das constantes tentativas de redução da maioridade penal, que paira sobre nossa sociedade.

É um caso que extrapola os limites da maioridade penal, abrangendo uma discussão extremamente complexa sobre a imparcialidade da justiça e a influência socioeconômica sobre as sentenças, mas como o próprio título do filme indica, a intenção aqui é abrir a discussão em torno do tratamento dispensado aos menores infratores.

Pensando em um cenário ideal, quase onírico, não seria sequer necessária uma idade separando maiores e menores. Assim como não seria necessário um estatuto do idoso, a lei Maria da Penha, a criminalização do racismo ou a inexistente, porém necessária, criminalização da homofobia. Já que todos os crimes devem ser julgados de forma imparcial por um magistrado, este analisará todos os fatores que influenciaram no crime em questão e aplicará a melhor sentença.

Na prática a isonomia navega em um mar de preconceitos e interesses pessoais. Não bastasse o histórico de vida ser desconsiderado no julgamento de pobres que fugiram de casa antes mesmo de começar a frequentar uma escola e cresceram em um meio que naturaliza o crime, quando o infrator vem de classes mais altas ainda há complacência por parte de advogados como Paulo.

Camuflados com nomes que tentam atenuar a verdadeira função, os presídios para menores de idade não têm capacidade para recuperar ninguém, e disso poucos discordam – talvez somente políticos, quando precisam de votos. Uma pena que esta estrutura totalmente falida de ressocialização só seja questionada quando o infrator em questão vem da classe média.

Seja um jovem estudante do melhor colégio particular do país – sim, por vezes esses jovens também cometem crimes – seja um jovem morador do bairro mais pobre, a “internação na Fundação Casa”, ou seja, prisão, não recupera e ainda compromete o futuro de qualquer um. Seria hipocrisia dizer que um jovem rico tem um futuro mais promissor, portanto não deve ter a vida comprometida por um erro, já que o termo ‘crime’ só é utilizado quando aquele que o executa é pobre. Se por um lado seu futuro é supostamente mais promissor, por outro seu passado lhe garante mais estrutura para evitar práticas ilegais.

De fato é tarefa do juiz analisar possíveis desdobramentos dos fatos e pensar nas implicações de suas sentenças, ou seja, a privação da liberdade de alguém que tenha a tendência de cometer um assassinato não tem apenas o caráter punitivo, mas protege a sociedade de um possível crime. Não é no julgamento, a ponta de um longo processo, que as questões sociais serão solucionadas, nem é o juiz que resolverá a desigualdade latente de nosso país, mas a aplicação justa das leis de forma igualitária, doa a quem doer, ao menos forçaria condições mais justas da reclusão, para que os tais centros de reabilitação de fato sirvam para o que seus nomes indicam.


terça-feira, 12 de maio de 2015

Pelo malo

Pelo malo é o nosso ‘cabelo ruim’, ou seja, aquele cabelo cacheado que graças à miscigenação de nosso povo, é predominante, porém considerado ruim quando o padrão de beleza enaltece o cabelo liso dos europeus. Uma pena não terem traduzido o título, já que é o cartão de visitas de uma história que se encaixaria perfeitamente na realidade brasileira.

A diretora Mariana Rondón mescla dois dramas ao longo do filme, o do protagonista Junior (Samuel Lange Zambrano), que quer ter o cabelo liso, e de sua mãe Marta (Samantha Castillo), que se desdobra para criar sozinha os dois filhos, tendo que lidar com dificuldades econômicas e com a imposição de padrões absurdos, mas que ela interioriza de forma muito intensa.

Junior é órfão, sequer tem nome já que o pai não é mencionado. Para ele o mais importante ao longo do filme é conseguir dinheiro para tirar uma foto na escola, para isso ele também quer alisar o cabelo e vestir uma roupa de cantor. Quem compartilha esse desafio com ele é uma amiga que quer tirar foto vestida de princesa.

Para um adulto pode parecer um detalhe sem a mínima importância. Não passa de uma foto burocrática que irá ilustrar uma ficha de matrícula. Mas no universo infantil alguns valores podem ser bem distintos. O que deveria incomodar a quem assiste não é a importância que Junior dá à fotografia, mas sua amiga preocupada em voltar para casa, pois naquele lugar ocorrem estupros. Uma das formas de expressão do machismo que permeia todas as cenas do filme.

Já no mundo adulto Marta está desempregada e ainda deve lidar com a angústia e a insegurança de criar dois filhos sem a presença do pai. Não devemos aceitar o engodo de que o machismo é exclusividade dos homens. Imersa nesta triste realidade, Marta dá espaço contínuo ao machismo.

É evidente que ela não está em uma situação das mais fáceis. É difícil encontrar alguém confiável para deixar os filhos e não pode ficar muito tempo sem trabalhar. À parte da situação financeira, se preocupa em dar bons exemplos e suprir a falta do pai. Infelizmente é neste ponto em que mais pesa os valores insanos da sociedade.

A constante preocupação do filho com a aparência e a obsessão com os cabelos lisos a fazem desconfiar da sexualidade do menino. Esse absurdo nos faz pensar nas incoerências cotidianas, que juntas formam armadilhas das quais ninguém poderia escapar sem uma leitura crítica dos valores que nos regem.

Não bastassem as imposições econômicas que se abatem sobre a família, obrigando Marta a se humilhar por um emprego e impedindo que Junior tire uma simples foto; não fossem suficientes os padrões opressores de beleza, que na América Latina ganham peso ainda maior por basearem-se em um estereótipo que pouco se vê na população; cria-se ainda um comportamento paranoico, que desde cedo impõe masculinidade através de atitudes certas ou erradas para meninos que sequer desenvolveram interesse pela sexualidade.

Psicologicamente seria possível fazer inúmeras análises sobre a importância da figura paterna no desenvolvimento de uma criança, porém Marta, por total falta de instrução, interpreta essa recomendação da pior forma possível, buscando qualquer referência que no máximo iria corroborar os preconceitos que já cercam sua família.

Por trás da ideia de que cabelo crespo é um cabelo ruim ou da obrigação de que meninos tenham cabelo curto, há uma série de preconceitos mesclados e naturalizados, que prendem a família do filme em um estado permanente de subdesenvolvimento.

Claro que o menino pode alisar o cabelo, raspar, tingir, sem que isso influencie diretamente na relação familiar, mas as dificuldades econômicas e sociais poderiam ser atenuadas com uma relação mais afetuosa entre mãe e filho, que não fosse sufocada pela obrigação de perpetuar valores machistas.

Em uma vida quase determinista, é possível imaginar sonhos desfeitos diante da hegemonia dos preconceitos vigentes. A tendência é que, cansados de remarem contra uma maré fortíssima, as raras exceções – sobretudo quando tão jovens e sem referências como Junior – acabem se rendendo à vergonhosa pressão social.

Um filme que desperta sentimentos tão intensos e diversos como 'Pelo malo' não apresenta somente as questões objetivas. Olhando com cuidado encontramos algumas nuances. Uma criança relata medo de ser estuprada, mas tudo bem, contra isso ninguém tomará uma atitude objetiva. O máximo que será feito neste sentido é alertar a menina com dicas para reduzir as chances de estupro. O que é combatido diretamente é o ‘cabelo ruim’ e a suposta homossexualidade. Com a violência e a pobreza logo se aprende a conviver. Infelizmente.


terça-feira, 5 de maio de 2015

Kamikaze

O termo Kamikaze nos remete à Segunda Guerra Mundial, quando o exército japonês, em frangalhos e sem recursos, via como única forma de ataque carregar um avião com explosivos para que o piloto se lançasse contra o alvo. Neste longa do diretor Álex Pina o Kamikaze é, na verdade, um homem-bomba.

Slatan (Álex García) é um cidadão do fictício Karadjistão e recebe como missão embarcar em um avião com um colete de explosivos a ser detonado em pleno voo, como represália pelas ações russas contra seu povo. O imprevisto é que uma nevasca adiou a viagem, obrigando Slatan a passar alguns dias hospedado junto com os demais passageiros.

Apesar de ser baseado neste argumento potencialmente tenso, o diretor tem o mérito de apresentar o filme como uma comédia permeada de questões muito pertinentes, que nos ajudam a pensar um pouco melhor a questão de pessoas que não somente estão dispostas a entregar a própria vida como também a destruir o maior número de vidas ao redor.

Situação distante de nossa realidade, claro que é revoltante pensar nas vítimas de um homem bomba. Se é desconfortável andar por uma grande cidade com medo da violência urbana, que dirá andar com o receio de passar ao lado de alguém na hora exata que o detonador for acionado.

A questão é muito complexa para ser reduzida à criminalização dos suicidas. É claro que um ataque deste tipo está errado e traz muitos problemas, por outro lado a ideia realmente não é trazer solução, mas estabelecer a insegurança. Para que uma pessoa se disponha a amarrar explosivos no próprio corpo e acionar os detonadores quando estiver rodeado por desconhecidos é preciso mais do que motivação. É necessário doutrinação. Lavagem cerebral, mesmo.

É neste ponto que entra a diferença entre Kamikaze e homem-bomba, sugerida acima. O Kamikaze não sai do escopo militar e ainda que uma guerra seja questionável, durante a batalha prevalece o instinto de matar para não morrer; no caso dos guerreiros japoneses ocorria um suicídio altruísta, morrer significava eliminar inimigos para proteger seu próprio povo.

Homens-bombas não atuam na esfera militar. Suas vítimas são civis, muitas vezes compartilham da mesma nacionalidade, crença religiosa e estilo de vida, por acaso frequentam o mesmo alvo simbólico em comum, enquanto os verdadeiros algozes de seu povo estão em segurança em algum local inacessível aos suicidas.

Uma vez que o objetivo de um ataque suicida não é acabar com a opressão sofrida pelo grupo ao qual o homem-bomba faz parte, e sim criar instabilidade política e insegurança, é bem provável que nos minutos que antecedem à explosão as futuras vítimas não sejam uma preocupação daquele que irá detonar a bomba, mas no filme esses minutos acabam virando vários dias, suficiente para que as particularidades individuais venham à tona.

Esse tempo extra dado ao homem-bomba do filme também é dado às suas vítimas, ainda que estas não saibam o que estava prestes a acontecer antes do voo ser adiado. O mais sedutor ao olharmos para alguém que comete um ato tão cruel é taxarmos logo de louco, maníaco ou qualquer adjetivo que deixe claro sua atitude abominável e o afaste das demais vítimas. Porém um olhar mais cuidadoso indica que todo mundo possui uma história.

Usando a tática narrativa de isolar um grupo de pessoas em determinado ambiente para mostrar as peculiaridades de cada um, o diretor nos mostra variadas personalidades. Muitos estavam eufóricos com a viagem, outros apreensivos dependendo do que motivara o voo, e entre eles Slatan era evidentemente o mais recluso e soturno.

É provável que tenha sido exatamente essa reclusão pessoal que tenha proporcionado ao personagem a empatia ausente nos demais. A maioria dos passageiros estava empolgada demais para prestar atenção no que estava a sua volta, sobretudo em um homem discreto, que parecia fazer questão de não existir para os demais.

Característica nem sempre valorizada, a empatia é uma habilidade rara em uma sociedade narcisista e egocêntrica. Definitivamente não é algo que se espera de alguém que está prestes a explodir todos que o rodeiam, por outro lado é valiosíssima na situação exposta, já que mesmo convivendo com as pessoas do voo, Slatan recusa contatos mais próximos. Observar os que estão próximos e se colocar no lugar do outro pode se tornar decisivo.

O fato de o filme ser uma comédia dá leveza às tramas dos personagens, por maior que seja a tensão de algumas situações. Por outro lado torna o final quase um jogo de cartas marcadas, o que não chega a comprometer a qualidade da obra.


(Não encontrei o trailer legendado, mas tudo bem, o trailer é ruim mesmo...)

terça-feira, 28 de abril de 2015

Ação entre amigos

A ditadura militar que assolou o Brasil durante vinte e um anos ainda mantém feridas abertas em nossa sociedade. Feridas que muito provavelmente não serão cicatrizadas devido a uma série de fatores.

Os criminosos que torturaram e assassinaram desde jovens militantes até crianças recém-nascidas se esconderam covardemente atrás da lei da anistia e não somente permaneceram impunes, como muitos ainda recebem aposentadorias de valor totalmente incompatível com a maioria dos aposentados do país.

Uma das consequências da impunidade por parte da justiça é a possível necessidade por parte das vítimas de fazer justiça com as próprias mãos, como uma forma de resolver as pendências engavetadas pelo judiciário. É a partir deste ponto que se desenvolve o filme do diretor Beto Brant.

O protagonista Miguel (Zecarlos Machado) acredita ter visto uma foto recente do algoz, Correia (Leonardo Villar), que oficialmente teria morrido há anos, e mobiliza os antigos companheiros de guerrilha para uma busca e a tão sonhada justiça.

São quatro ex-guerrilheiros que divergem quanto ao que devem fazer diante de uma pista bastante remota. Essa divergência é natural. Fazendo uma divisão bem simplista da sociedade que viveu a ditadura, separando em militares, combatentes e cidadãos que não se engajaram politicamente encontraremos hoje uma série de análises sobre o período, desde aqueles que reconhecem o terror do regime militar mas consideram que o melhor é esquecer e seguir a vida, até os que juram ter sido um período de prosperidade econômica, em que apenas terroristas foram reprimidos.

Tentar analisar determinado grupo, como os amigos do filme, sob uma falsa uniformidade, excluindo as particularidades pessoais, é um erro que leva a injustiças. Apesar dos guerrilheiros lutarem para derrubar um regime ilegítimo e politicamente fraco – a ponto de suprimir a oposição e fechar o congresso – cada um tinha suas motivações e valores pessoais, que segue influenciando nas atitudes a serem tomadas.

Hoje é muito cômodo opinarmos sobre erros e acertos daqueles que deram a vida pela redemocratização do país. Sentado diante de um computador há quem se sinta no direito de criticar aqueles que, sob tortura física e psicológica, entregaram planos que comprometeram a oposição. Difícil é saber como essas pessoas reagiriam depois de passar horas penduradas no pau-de-arara, levar choques nos órgãos genitais ou ver familiares ameaçados de morte.

Depois de passar por tudo isso durante meses as reações são as mais diversas, como indica o filme. Miguel está disposto a levar sua vingança até as últimas consequências, sem medir esforços para caçar aquele que o torturou e assassinou sua namorada. Se por um lado a justiça deve ficar restrita ao Estado e ser aplicada de forma imparcial, por outro a omissão das instituições diante de crimes tão cruéis leva suas vítimas à indignação dupla, tanto pelos males sofridos quanto pela impunidade daquele que goza de liberdade e bem estar depois dos crimes cometidos.

Apesar da indignação de Miguel ser compartilhada com os amigos, a sede de vingança encontra divergências. Nem todos estão dispostos a fazer justiça com as próprias mãos e essa recusa também pode ter vários motivos, dos mais egoístas aos mais altruístas, como o filme bem indica.

Diante de tantos absurdos que permearam o período de ditadura militar, de sua tomada ilegítima do poder até seu fim subordinado a uma anistia que acobertou assassinos torturadores, a impunidade daqueles que permaneceram por tanto tempo no poder sem sequer serem investigados pelos crimes que cometeram resulta em vários outros problemas.

Um deles é a tentativa de fazer justiça à margem da lei, que é uma atitude sempre condenável, por mais que a omissão jurídica seja revoltante. Não se trata de acobertar os crimes cometidos pelos ditadores e seus cúmplices, tão pouco perdoar o imperdoável. O que está em jogo são os riscos de executar uma sentença rasa, sem a apuração de fatos e consequentemente parcial.

Outro problema é a distorção histórica que se desenvolve, em parte devido à impunidade. Ainda hoje há quem veja os criminosos militares como heróis e cobrem a volta desse regime ao poder, em vez de exigir a punição pelos crimes cometidos ao longo das duas décadas em que permaneceram arbitrariamente no comando do país.

O fato de vivermos um período conturbado na política nacional exige uma reação da população, que deve cobrar seus direitos e os deveres mais básicos dos governantes – de todos os governantes. O que não tem justificativa é o clamor pela volta da ditadura como se este período tivesse trazido algo de bom para o país. Conforme foi difundido em reação às cobranças da volta dos militares ao poder, é fácil pedir uma ditatura em uma democracia, o difícil é pedir democracia em uma ditadura.


terça-feira, 14 de abril de 2015

A educação proibida (La educación prohibida)

Poucos temas são tão universais quanto a educação. Atualmente é quase impensável que crianças que não frequentem uma instituição escolar, pois ao menos em tese a educação é um direito de todos. Nesse documentário os diretores argentinos German Doin e Verónica Guzzo coletam materiais em oito países latino americanos para fazer uma crítica ao modelo de educação tradicional, tão antigo e tão anacrônico, apesar de generalizado.

Apesar do filme não ter material gravado no Brasil, nosso país não difere quase nada das situações homogêneas apresentadas e, sobretudo quando o governo lança o lema “pátria educadora” o assunto abordado no filme ganha ainda mais notoriedade.

Ninguém nega que a educação em nosso país precisa melhorar. Porém quando as necessidades avançam, as divergências começam a aparecer. Como fazer com que a educação melhore? O que significa uma educação de qualidade? Essas e outras perguntas atormentam governos e educadores pelo mundo e diante da dúvida sobre qual o caminho a ser tomado, seguimos com um modelo educacional que não evolui.

Os métodos pedagógicos melhoraram. Se pensarmos que o uso de palmatória era absolutamente normal e ainda existiam outros tipos de castigos físicos, o avanço foi enorme. Porém muitos ainda se baseiam em características passadas como referência de uma boa educação.

O modelo considerado ideal por muita gente é o de uma sala com crianças enfileiradas, em um silêncio sepulcral, ouvindo e anotando o que os professores têm a dizer. A utopia dessa ideia não se restringe ao fato de que antigamente isso era conseguido com base no medo de castigos físicos. Cada vez mais a ideia de uma educação totalmente passiva é ultrapassada por métodos muito mais eficientes.

Vemos no documentário a importância de cativar as crianças desde cedo para que elas não olhem para a escola como uma obrigação, mas como um lugar que será útil de alguma forma e simplesmente não há como fazer isso excluindo as brincadeiras que são inerentes ao universo infantil.

Ainda que não se de conta disso, ao brincar uma criança coloca em prática muito do que aprende – ou deveria aprender – em sala de aula, mas de uma forma muito mais atraente, consequentemente muito mais produtiva, do que sentada em uma cadeira desconfortável, sendo coibida de todas as formas possíveis.

No Brasil, durante as campanhas eleitorais, uma promessa muito frequente há várias eleições é o ensino em tempo integral. Com isso os educadores concordam, porém de nada adianta simplesmente estender o atual modelo para um período maior. Causaria apenas mais repulsa nas crianças que já não veem sentido no que os professores falam.

O ensino em tempo integral deveria diversificar as atividades e oferecer ferramentas para que os estudantes possam por em prática aquilo que mais gostam. É inútil colocar dezenas de estudantes em uma sala, desprezar as individualidades, aplicar o mesmo conteúdo e esperar que todos aprendam da mesma forma. Esse é o modelo vigente há muito tempo, portanto pode até dar resultados, mas para cada exemplo de sucesso há um exército de potenciais desperdiçados pela escola.

Por aqui as escolas particulares são vistas como modelo, sobretudo quando comparadas às piores escolas públicas, das quais alunos concluem o ensino médio muitas vezes sem saber ler e escrever. De fato é de se pensar o que esses estudantes fazem ao longo de toda a vida escolar se todo esse tempo não foi suficiente para aprender o mais básico. Por outro lado as escolas particulares não são isentas de críticas.

Uma visão utópica do filme mostra a importância das crianças receberem amor dos educadores e da própria família. As escolas particulares do Brasil tem um único foco: preparar o aluno para a vida profissional. Com currículo voltado para a aprovação no vestibular e um ambiente competitivo que instigue os estudantes a pertencer ao mercado de trabalho, as escolas não se preocupam em formar cidadãos, mas somente profissionais que terão sucesso – econômico – no mercado de trabalho, estimulando desde muito cedo a competição em detrimento da cooperação.

Parece que por mais que a sociedade mude e a pedagogia se desenvolva, a educação continua tendo como base valores como o medo, a competição, a obrigatoriedade. Não chega a ser uma grande surpresa termos uma sociedade violenta e assustada.

Curioso que apesar do Brasil não ter tido participação nas gravações, marcamos presença através de citações de Paulo Freire, um dos educadores mais respeitados do mundo, frequentemente hostilizado em seu próprio país, por pessoas que insistem em encarar teorias que visam maior equidade como inimigas a serem combatidas.

Precisamos definitivamente melhorar nossa educação. A partir disso será mais fácil melhorarmos as escolas.



terça-feira, 7 de abril de 2015

A boa mentira (The good lie)

Em contraste com sua diversidade étnica e cultural, a história do continente africano segue um padrão bastante triste de colonização, baseado sempre na extração de recursos, exploração de nativos e guerras que até hoje fazem com que milhares de refugiados migrem periodicamente na tentativa de fugir da morte.

Um exemplo claro desta situação é o Sudão. Com fronteiras traçadas por colonizadores europeus, desconsiderando completamente os conflitos étnicos locais, o país mergulhou em uma guerra que culminou na divisão do território. De forma bem resumida, na teoria o resultado foi a criação do Sudão do Sul, na prática este filme do diretor Philippe Falardeau mostra as nuances dos impactos do conflito nos povos locais.

Através de um grupo de irmãos, cujos pais foram mortos e agora devem caminhar mais de mil quilômetros até um campo de refugiados, conhecemos brevemente um estilo de vida que nos parece uma fábula, sendo na verdade uma realidade cotidiana, não somente para tribos africanas, mas também indígenas e povos que vivem – muito bem – distante do que costumamos chamar de civilização.

A ausência de escrita que dá valor à transmissão de conhecimento através de histórias, a habilidade de encontrar água onde parece existir somente areia, a capacidade de espantar predadores para conseguir sua caça. Uma infinidade de conhecimentos que, por não precisarmos, julgamos menores.

Somente após um corte temporal de muitos anos os irmãos que conseguiram sobreviver conseguem visto para os Estados Unidos. A segunda parte do filme mostra o estranhamento diante de uma cultura completamente nova, com valores morais muitas vezes opostos àqueles cultivados desde a infância e contato com pessoas presas às regras, até o momento em que o legalismo passa a ser pessoalmente desfavorável.

Em algumas situações a presença dos sudaneses nos Estados Unidos pode parecer um incômodo aos moradores, afinal toda a rotina diária precisa ser alterada e não basta simplesmente alocar os irmãos em uma casa. Se pessoas que vivem em grandes cidades, de qualquer país, passam por situações constrangedoras ao visitar o exterior, o que dizer de pessoas que nunca tiveram contato com a tecnologia mais básica e caem de paraquedas em um mundo completamente diferente?

Comparando a nova realidade com os valores dos africanos o filme mostra com muita competência algumas incoerências que merecem nossa reflexão. Toda a gratidão e dedicação dos imigrantes soam até engraçadas em uma sociedade já anestesiada pela necessidade de adequação aos padrões. A curiosidade e espanto quase infantis dos irmãos, que passam a vender suas forças de trabalho, a princípio nos divertem, porém deveriam nos envergonhar por passarmos a considerar normal o que eles questionam.

Um mercado jogar no lixo a comida que ainda serve para o consumo, apesar de não servir para o comércio; uma fábrica produzir peças em série tratando seus funcionários como máquinas; pessoas que seguem ordens e toleram absurdos dos patrões por precisarem manter os empregos. Tudo isso, tão natural, tão cotidiano, não faz parte das tribos ditas não civilizadas.

Para deixar a situação toda ainda pior podemos enfatizar que quase toda a dificuldade dos sudaneses – para manter o foco do filme, já que o raciocínio se estende para o restante da África negra – tem origem na colonização extrativista promovida por países de primeiro mundo, que se desenvolveram e construíram seu bem-estar social com base na riqueza retirada do continente africano.

Entre todas as funções que o cinema pode exercer, o diretor Philippe Falardeau conseguiu reunir várias em uma única obra. Seu filme entretém, informa, em alguns pontos chega a divertir, mas pensando no resultado final o que realmente marca é a emoção, a indignação e também o sentimento de culpa inevitável que é jogado sobre todos nós.

Independente de nunca termos pensado na guerra que dividiu o território do Sudão, nunca termos parado para refletir sobre os campos de refugiados ou sobre a situação dos imigrantes em países estrangeiros, quando nos orgulhamos de um mundo economicamente globalizado não temos como fugir do ônus da concentração de riquezas.

Lavar as mãos diante de um problema que objetivamente se estabelece entre colônias africanas e metrópoles de primeiro mundo nos garante um falso comodismo, omitindo o eixo de exploração da mão-de-obra africana, que de forma escrava construiu nosso país por quase quatro séculos.

Não dá para negar que as vítimas do desenvolvimento econômico global são os africanos, o que podemos ver no filme é que seria hipocrisia nos colocarmos com vítimas, mas perdemos muito negligenciando o conhecimento que os povos africanos têm a oferecer.

Nota: triste digitar o nome do filme no Google e ver que a maioria esmagadora das imagens que aparecem relacionadas são da atriz Reese Witherspoon, bonita, americana e coadjuvante, que ganha mais destaque que os protagonistas.


terça-feira, 24 de março de 2015

Boa Sorte

O uso de substâncias que alteram nosso estado de consciência acompanha toda a história da humanidade. Dos mais leves chás aos mais potentes alucinógenos, o homem cria diversas situações para justificar tal consumo, como rituais religiosos, purificação, comemorações, etc., até chegar ao puro uso recreativo.

Com o advento da modernidade o uso de algumas substâncias se tornou um grande problema. Muitas delas têm efeito em curto prazo, como a ressaca, que faz com que a força de trabalho do dia seguinte seja comprometida após uma noite de poucos limites. Outras mostram resultados em longo prazo, deteriorando pouco a pouco a capacidade produtiva – física ou intelectual – e também comprometendo a produtividade.

Neste longa a diretora Carolina Jabor adapta o conto "Frontal com Fanta", de Jorge Furtado, para através dos protagonistas João (João Pedro Zappa) e Judite (Deborah Secco) inserir o consumo de substâncias ilícitas em um contexto social, abrangendo as incoerências do discurso antidrogas e possíveis consequências do consumo de determinadas substâncias.

João é internado em uma clínica psiquiátrica. O diagnóstico foi dado mais pelos pais do que pelos médicos. Judite é a moça por quem ele se apaixona, o problema é que aos 30 anos ela é portadora do HIV e seu corpo, já bem debilitado pelo abuso de substâncias tóxicas, não tolera os remédios. Não tem mais para onde correr.

Desses dois estereótipos, o de Judite é o que passa a mensagem mais simples e clara. Não se trata de levar uma vida presa à moral e aos costumes tradicionais, mas de saber dosar os excessos para que possamos desfrutar do que quisermos por mais tempo. O grande destaque do filme é conseguir passar essa mensagem se um moralismo exagerado.

Há momentos em que podemos identificar certo arrependimento da personagem, sobretudo quando ela se sente inibida de planejar um futuro incerto e provavelmente curto, mas a maior notoriedade está na postura crítica de Judite diante de sua própria condição e das escolhas que fez ao longo da vida.

João já forma um estereótipo mais complexo, sobretudo por todos que o cercam. Se por um lado crescem os distúrbios psicológicos, tanto em quantidade quando em diversidade, por outro há uma crescente capitalização desses distúrbios. A quantidade de dinheiro que se movimenta com o comércio de remédios para o tratamento de problemas psicológicos é imensa, mesmo com a eficácia extremamente duvidosa. As clínicas particulares, como a que João e Judite estão internados, são igualmente lucrativas e os psiquiatras envolvidos trabalham, amparados por essa estrutura lucrativa, com uma família desesperada de um lado e um paciente já encarado como louco de outro.

Através de algumas atitudes metafóricas somos instigados a pensar na diferença com que encaramos as pequenas loucuras diárias. João diz poder ficar invisível, bastando para isso misturar um medicamento com refrigerante, assim ninguém pode vê-lo. Na verdade os exemplos disso apenas escancaram certos absurdos cotidianos; mostram o quanto podemos ficar entretidos com bobagens ou acostumados com absurdos a ponto de não enxergarmos o que está ao redor, a menos que algo muito inusitado aconteça.

Anestesiados em nosso cotidiano insano, mas já naturalizado, passamos a agir com intolerância diante do que consideramos anormal. É frequente vermos um comportamento distinto do que esperamos sendo taxado de loucura, doença, anormalidade e uma série de outros adjetivos que apenas mascaram nossa frustração por um comportamento que não se adequa às regras.

Tudo bem que o filme mostra o contraponto de João através de Judite, que na ausência de limites parece ter chegado ao fim da linha bem antes do que gostaria, mas é com ela que o rapaz se identifica e é o sentimento que surge entre os dois que toma o espaço de sua ansiedade, antes preenchida por remédios.

Um passeio rápido pelo centro de uma grande cidade nos dá inúmeros motivos para sentir angústia, a divisão que o filme nos mostra se dá pela tolerância em relação a como as pessoas lidam com tamanho desconforto. Parece que acostumar-se é tolerado, ignorar os problemas ou se tornar insensível até mesmo diante de pessoas próximas também é considerado normal.

O ‘problema’ parecem ser aqueles que não conseguem se adequar aos absurdos. Portanto qualquer tentativa de reação, qualquer tentativa de fuga com substâncias ilegais que alteram a consciência são logo taxadas de loucura e demandam tratamento, rendendo lucro, rendendo uma falsa sensação de dever cumprido por parte dos responsáveis pela internação.

Uma passagem breve, porém sempre marcante, é a de Fernanda Montenegro como avó de Judite, que com a maior naturalidade enrola um baseado e fuma como se fosse um cigarro comum. Não teve tanta repercussão quanto o rápido beijo em Nathália Timberg na novela, mas atitudes controversas encenadas por uma atriz tão consagrada sempre ajudam a desconstruir preconceitos. É um passo pequeno, mas representativo.


terça-feira, 17 de março de 2015

Para sempre Alice (Still Alice)

Meus ontens estão desaparecendo e meus amanhãs são incertos. Então, para que eu vivo? Vivo para cada dia. Vivo o presente.

O mal de Alzheimer nos remete logo à perda de memória. De fato esse é o sintoma imediato, que chega ao extremo de fazer com que as pessoas próximas daqueles que têm a doença precisarem tirar os espelhos da casa, pois em níveis avançados os pacientes “esquecem” que envelheceram. Dá para imaginar a sensação de interromper essa leitura agora, ir até o banheiro, olhar no espelho e dar de cara com um reflexo décadas mais velho do que se espera?

Adaptado do romance homônimo de Lisa Genova, os diretores Richard Glatzer e Wash Westmoreland mostram nas telas não somente a angústia inicial da protagonista Alice (Julianne Moore), mas como a vida de todos que estão próximos é severamente afetada com o desenvolvimento da doença.

O Alzheimer é terrível para qualquer pessoa, independente de idade ou histórico de vida, mas aqui tudo fica mais impactante, pois a protagonista é uma renomada professora de Harvard, com um intelecto até então invejável, e tem uma rara instalação precoce da doença. Alice tem apenas cinquenta anos e está no auge de sua carreira; nos primeiros meses tem consciência do definhamento de seu potencial.

Sua família é composta pelo marido, também professor de Harvard, e três filhos. Todos com carreira promissora e compromissos inadiáveis, ao menos até a descoberta da doença. Olhando de fora é fácil e tentador dizermos que não deve haver limites para a dedicação de todos à Alice, afinal é uma pessoa da família, extremamente importante para seus entes, que por isso não devem medir esforços para fazer o que tiver ao alcance.

O que não podemos esquecer é que não se trata de uma internação temporária, com previsão de alta. Alice, aquela profissional competente, mãe dedicada e esposa que soma suas qualidades às do marido formando um casal exemplar não irá receber alta, pior, irá receber notícias cada vez mais desanimadoras sobre seu estado de saúde. Consciente de seu estado e refutando a hipótese de se tornar um peso para a família, a protagonista tenta encontrar uma solução enquanto sua racionalidade ainda permite.

Uma reflexão que o filme acaba instigando se dá em relação ao limite do que somos. Aquela pessoa será “para sempre Alice”, ou em uma tradução mais precisa do título original, continua sendo Alice, ao menos fisicamente. Por isso mesmo notamos uma tentativa dos familiares de conciliar os cuidados que despendem a ela e suas necessidades pessoais.

Não se trata de esquecer a esposa ou a mãe, mas de equilibrar as necessidades às quais a própria protagonista, logo após o diagnóstico, tinha a preocupação de não se tornar um empecilho. Talvez a consequência mais dolorosa do Alzheimer seja relegada aos familiares, que estão condenados a assistir a uma morte cognitiva antes da morte física. Qual seria a data desse óbito precoce? Quando Alice não reconhece a própria filha? Ou quando acredita que a irmã – morta há mais de trinta anos – está em casa?

Ao menos para um leigo, como eu, a impressão é a de que o diagnóstico de Alzheimer é uma condenação inapelável. No caso de Alice é ainda pior, já que a rara forma de instalação precoce de seu caso é genético e dominante. Seus filhos têm 50% de chance de também desenvolver a doença. À mãe, desesperada, só resta chorar e se desculpar por uma culpa que não existe.

Um portador de Alzheimer sabe que sua consciência está se esvaindo, sobretudo uma professora universitária com acesso a muitos estudos sobre o tema. Planejar parece um ato quase irresponsável, já que não se sabe se a doença irá se desenvolver rápido. Viver intensamente os últimos momentos de consciência parece ser o que resta, ainda que não restem lembranças posteriores.

Há alguns anos, quando começaram a falar em clonagem de seres humanos, os cientistas se apressaram em deixar claro que a clonagem consistiria em uma cópia genética, o que não quer dizer que resultaria em dois seres humanos iguais, já que somos formados por lembranças de vivências e aprendizagens inseridas em um contexto social e histórico.

Sendo assim, apagando essas lembranças, o que sobra? Ao que parece, uma cópia do que já fomos. Geneticamente igual, mas vazia de conteúdo e cada vez mais incapaz de interagir com o que está ao redor. Angustiante – a quem as faculdades mentais ainda permitem sentir angústia.


terça-feira, 10 de março de 2015

Relatos Selvagens (Relatos Salvajes)

Através de seis histórias o diretor Damián Szifron consegue pegar ações cotidianas e desenvolver tramas com reações que costumam transitar entre nossas intenções mais bem reprimidas. Nossa sociedade, muitas vezes hostil, parece nos provocar pouco a pouco, até o dia que não estamos mais dispostos a aguentar provocações e explodimos.

O que fica sempre bem claro no filme é que nossas ações – ou reações – estão distantes de serem isentas de culpa. Não há certo e errado em Relatos Selvagens, mas em geral uma sucessão de pequenas corrupções e atos inescrupulosos, que quando abrimos mão da civilidade e ignoramos as consequências de nossos atos, tornam-se embates selvagens.

As provocações sofridas pelos protagonistas variam, mas com a exceção de uma ou outra mais grave, o restante poderia ser resolvido em uma mesa de bar, ou mesmo esquecido, sem grandes prejuízos e com muitas vantagens aos envolvidos. O paradoxo é que a mesma civilização a qual evocamos na hora de ponderar o comportamento dos personagens é aquela que, com pequenas corrupções somadas, irritam ao ponto de nos fazer perder o bom senso.

Alguns conflitos do filme são entre pessoas. Provocações, traições, corrupções, etc. Uma série de comportamentos colocados de forma a escancarar a incoerência das reações, baseadas na parcialidade de que quando alguém faz é absurdo, mas quando a própria pessoa faz existe alguma justificativa ou desculpa esfarrapada.

Duas das histórias desenvolvem basicamente um embate entre cidadão e estado, evidenciando o stress causado pela burocracia e as brechas que surgem para que os personagens envolvidos possam levar alguma vantagem.

Não é fácil ter que lidar com injustiças cotidianas e institucionais. Frequentemente somos tentados a pensar que não apenas o mundo é injusto, como também nunca é injusto a nosso favor. Na verdade nossas pequenas corrupções passam despercebidas aos nossos próprios olhos.

Quando estamos presos em um congestionamento e um ‘espertinho’ (para não baixar o nível do blog) passa correndo pelo acostamento, ficamos torcendo para que um guarda de trânsito esteja de plantão à frente. Evidentemente que se formos flagrados parados em local proibido vamos declamar a sequência de justificativas que todos temos decoradas – é só um minutinho, já vou sair, não tinha vaga, etc.

No caso do filme não há sequência de justificativas, mas confrontos diretos e inconsequentes, que o diretor tem o mérito de conseguir exibir com humor, por maiores que sejam as tragédias. Em comum vemos personagens que não buscam justiça, mas uma vingança que consideram justa, dadas as circunstâncias.

Após pensar um pouco no retrospecto das histórias, tentando encontrar alguma sequência lógica para os episódios, acredito que é possível encontrar uma racionalização crescente das reações. Não que os personagens se tornem centrados e reflexivos, os relatos são selvagens do começo ao fim, mas mesmo sem nenhum spoiler dá para dizer que os conflitos passam de ações surreais para reações mais plausíveis, que podem ser criticadas em maior ou menor nível, dependendo das loucuras que cada um já tenha cometido na vida real.

Em uma sociedade que, sobretudo em grandes metrópoles, tem se mostrado pouco acolhedora, é compreensível que muitas vezes nosso limite seja extrapolado e consideremos que precisamos fazer qualquer coisa em troca do que consideramos justo. Entre comédia e violência, Szifron nos lembra em todas as histórias que nossas ações não estão nem isentas de culpa nem livres de consequências.

Diante das conclusões tragicômicas das histórias narradas, a conclusão que fica bem evidente é que por mais difícil que seja tomar uma atitude racional, por vezes isso pode nos livrar de muitos transtornos adicionais. Indo um pouco além, não custa lembrar que uma decisão racional não exclui a justiça ou vingança que os personagens do filme buscam.

Abrindo mão da impulsividade selvagem podemos ser politicamente corretos e chegar à justiça de fato, combatendo também nossas próprias corrupções, ou ainda manter a linha dos personagens do filme e obter uma vingança pessoal, sem ter que sofrer consequências tão severas por isso.

Quando o filme acaba – e esse é um daqueles que nos deixa um lamento por não ter mais histórias – resta a reflexão sobre nossa própria conduta cotidiana. As instituições burocráticas irritam, algumas atitudes irritam, mas fazemos parte deste tecido social. O que está ao nosso alcance é cuidar de nossas próprias atitudes, que sozinhas não são quase nada, porém esse ‘quase’ pode fazer toda a diferença.


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