quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Além da Vida (Hereafter)

O diretor Clint Eastwood está agora com oitenta anos, tem maturidade de sobra e experiências de vida que lhe permitem lançar um olhar bastante maduro sobre os temas abordados neste filme. Comovente na medida certa e sem tomar partido de forma desnecessária em relação a dogmas que permeiam a fronteira entre a vida e a morte, o diretor trabalhou em Além da Vida (Hereafter) não necessariamente o pós-morte, mas a sequência da vida de três protagonistas após eventos marcantes.

Marie LeLay (Cécile de France) é uma renomada jornalista francesa, que passa por uma experiência de quase morte durante um tsunami na Indonésia. A cena chama a atenção pelo realismo e a capacidade de demonstrar a angústia gerada pela onda devastadora. Ao retornar à França, Marie passa por uma súbita mudança em seus valores, passando a questionar o racionalismo extremo com o qual encarava a vida e a se aproximar de possibilidades muito mais sensitivas. O problema é que ninguém na redação de seu jornal estava disposto a encarar tais possibilidades.

Em Londres o pequeno Marcus (George McLaren) vive ainda na infância situações que seriam difíceis para qualquer adulto, como a mãe dependente química, a perda de uma pessoa próxima e a necessidade de subitamente ter que cuidar da própria vida, optando por buscar incansavelmente um contato mediúnico. É curioso como Marcus poderia ser uma presa fácil de falsos videntes, porém a astúcia de quem está acostumado com grandes problemas e a visão despretensiosa da infância faz com que o garoto identifique com facilidade atuações que, por mais patéticas que possam ser, convencem muitos adultos. Também chama a atenção a forma como o egoísmo da infância é retratado, pois o grande apego material está presente até mesmo após a vida notado pelo boné utilizado por Marcus, que não deixa de ser um banho de água fria no apego do jovem ao irmão.

Por fim somos apresentados a George Lonegan (Matt Damon), um vidente – este é o ponto que o filme mais se aproxima da crença, ainda que interpretações racionais sejam possíveis – que prefere encarar sua capacidade de entrar em contato com os mortos como uma maldição. A princípio essa reação soa estranha, mas os problemas que a vidência gera para George tornam sua repulsa compreensível, já que lidar com as emoções de pessoas desconhecidas, que recebem o impacto de um contato com outra vida, fazia com que o personagem carregasse um fardo cada vez mais pesado – e desnecessário. Além disso o suposto dom fez com que o rapaz ficasse cada vez mais solitário, tentando levar uma vida normal para voltar a se aproximar das pessoas.

O que une os personagens, independente de qualquer contato entre eles, mais do que a experiência com algum tipo de vida após a morte, já que os três fatos são bem distintos entre si, é a dificuldade que todos encontram com o ambiente que os cerca. Marie tenta abrir os olhos para uma possibilidade distinta sendo desestimulada pelas pessoas próximas, que encaram sua mudança de comportamento como um problema e tentam moldar sua forma de agir de acordo com os interesses do trabalho. Marcus é retirado de uma vida que já não era fácil e jogado sem muito amparo em outra realidade, com adultos querendo colocá-lo em uma espécie de forma, da qual saísse plenamente adaptado e remodelado. George sofre grande pressão de seu irmão Billy (Jay Mohr) para voltar a fazer os contatos, de forma que ambos possam ganhar dinheiro com isso, e tem ainda tem que lidar com pessoas que, após descobrirem seu dom, exigem um contato, ignorando as advertências para se arrependerem depois.

A impressão que fica, não pelo que os protagonistas fazem, mas pelo que passam, é que “além da vida” não existe a morte, mas existe o outro. Cada um é marcado pelo individualismo dos que os cercam e sofrem consequênicas de suas próprias atitudes, por vezes altruístas, outras apenas diferentes do esperado, lutando por um pouco de autenticidade em meio às imposições de comportamento de massa. Entre um representante da infância e dois da vida adulta, faltou um personagem mais velho, que fica por conta da visão do próprio diretor.

Conforme apresentado, “Além da Vida” pode oferecer uma leitura pouco relacionada com a vida após a morte, independente da visão que cada um tem sobre o tema. Há uma série de fatores a serem encarados além da vida e o pós-morte é apenas um deles. Para uma leitura mais individual sobre a relação pessoal com a morte, o próximo texto será sobre Biutiful.





segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

Lixo Extraordinário (Waste Land)

Os trabalhos habituais de Vik Muniz, fotografando mosaicos gigantes montados com lixo para formar imagens muitas vezes consagradas, rodam o mundo e encantam pela originalidade, beleza e capacidade de prender o olhar por tempo indeterminado. É possível passar horas observando a mesma tela e desvendando nuances, tanto ao observarmos de longe, quanto ao chegarmos perto para ver que tudo é formado por materiais descartados, desde pequenas tampas de garrafas até geladeiras e pneus.

Em linhas gerais era essa a ideia que eu tinha sobre a obra do artista e quando fui ver o documentário, dirigido pela britânica Lucy Walker, em parceria com João Jardim e Karen Harley, esperava algo como um making of da montagem das obras, mas Lixo Extraordinário vai além e não mostra apenas a transformação de materiais descartados em uma obra de arte, mostra também a transformação do artista ao longo do trabalho, dos catadores que ganham a vida no aterro do Jardim Gramacho e inevitavelmente provoca mudanças profundas em quem assiste o documentário.

Como plano de fundo é possível ver a produção das obras de Vik Muniz, mas o que surpreende, choca e comove é a apresentação das pessoas que trabalham no maior aterro sanitário do mundo. A princípio temos a confirmação de uma imagem pré-concebida, baseada na falta de conhecimento, de que o lixão é uma área isolada composta por uma massa uniforme de material inutilizado, onde ratos, urubus e porcos disputam espaço com seres humanos, que também costumamos uniformizar como pessoas sem qualificação, a margem da sociedade. O preconceito é desfeito sem muitas dificuldades.

Tião é o presidente da ACAMJG (Associação de Catadores do Jardim Gramacho) e com sua simpatia nos conta um pouco sobre sua vida e apresenta alguns outros trabalhadores retratados no filme. Aos poucos vemos quanta diversidade cerca o local, com divisão clara das tarefas em todas as etapas da coleta e a personalidade marcante dos trabalhadores. Aproveitando o gosto pelos estudos Tião, assim como seu amigo Zumbi, recolhe livros encontrados no lixo e guarda para formar uma biblioteca; assim já leu Maquiavel, Nietsche, Schopenhauer, etc. Algumas querem deixar o aterro, como Isis e Magna, porém sabem da importância do trabalho e não se envergonham do que fazem, enfim, o que une os catadores como um ponto comum a todos é a consciência de quem são e o que fazem, a clareza dos motivos que os levaram a recolher material reciclável para viver e a necessidade de união para superar as dificuldades vindas de todos os lugares.

Quando vemos tudo o que é considerado pelos catadores para fazer a seleção do material é possível lembrar a cômica teoria da microeconomia, onde supostamente o mercado atingiria sua eficiência máxima livremente. A demanda maior de certos materiais faz com que o valor aumente no mercado, aumentando também sua procura; não há salário mínimo para os trabalhadores nem impostos sobre o que é coletado, o que supostamente – para a microeconomia – é nocivo ao mercado. A grande diferença entre este mercado e as grandes empresas é que para estas o estado permanece ausente até que uma crise financeira force os cofres públicos a despejarem rios de dinheiro para salvar más administrações, enquanto que aos membros da ACAMJG a participação do estado só é visível quando governantes favorecem grandes empresas de reciclagem em detrimento dos catadores, que recebem centavos da grande fortuna gerada pela reciclagem.

O mercado de bens simbólicos permitiu que as obras de Vik Muniz, retratando os trabalhadores do Jardim Gramacho, arrecadassem dinheiro para a ACAMJG, mas o aterro será fechado em 2012. A princípio seria uma atitude compreensível, já que o local não fornece condições de trabalho, porém nenhuma medida eficaz foi tomada para realocar os trabalhadores que ganham a vida em um local que aceita qualquer pessoa, independente da qualificação ou currículo.

Através de Lixo Extraordinário os trabalhadores do Jardim Gramacho nos comovem e ensinam, não pelo comodismo reducionista de achar que há alguém com trabalho mais pesado e vida mais dura, mas pela clareza que possuem sobre a própria condição e a preocupação constante com dois pontos primordiais para encarar qualquer tarefa: a instrução e a união dos trabalhadores envolvidos. Entrei no cinema para conhecer mais sobre a obra de Vik Muniz e saí com a certeza de que essa é apenas uma parte do que o filme tem a nos oferecer. Impossível ter algum contato com o documentário sem sofrer nenhuma transformação, tal qual o lixo que pode ser transformado em obra de arte.





terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Sal de Prata

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
(Fernando Pessoa)


A ideia de trabalhar a produção cinematográfica dentro de um filme não é nova, muitos longas utilizam certa metalinguagem, mostrando os bastidores do cinema nas telas de diversas formas. Em “Sal de Prata” o diretor Carlos Gerbase explora os desdobramentos do relacionamento da economista Cátia (Maria Fernanda Cândido) com o cineasta Veronese (Marcos Breda), depois que este morre e deixa trechos de roteiros incompletos.

O universo do cinema, e das obras de arte em geral, abre espaço para sonhos e devaneios que podem ser inspirados em fatos reais e particularidades da vida do autor, mas isso não é regra, sendo que os fatos descritos, muitas vezes minuciosamente, podem não passar de imaginação. É com esse entrave que a economista se depara quando começa a ler os roteiros que o cineasta, quando vivo, não mostrava para ninguém. Acostumada com um campo de atuação profissional muito mais focado na realidade, sem muito espaço para sonhos em meio às transações financeiras milionárias, Cátia tem grande surpresa ao ver que Veronese recheava suas obras com cenas de sexo.

Ainda que a economista soubesse que seu relacionamento não era um mar de rosas, diante dos roteiros o ciúme era inevitável ao imaginar que as cenas eram inspiradas em outras mulheres, principalmente na bela Cassandra (Camila Pitanga), a atriz favorita de Veronese, que, assim como ocorre com cineastas reais, passou a despertar suspeitas de relacionamento entre as pessoas próximas.

A partir daí o diretor oferece uma série de hipóteses interessantes de conflitos para pensarmos o filme. Além do ciúme póstumo de Cátia, que curiosamente fortalece o relacionamento do casal quando já não há possibilidades devido à morte de Veronese, temos algumas disputas pelos roteiros inacabados que acirram a disputa entre diretores e a gradual inserção de Cátia no sedutor ambiente de filmagens, a partir do momento que a moça supera o impacto de se deparar com histórias até então inimagináveis escritas pelo namorado.

Durante o filme, como é característico em histórias similares, alguns momentos começam a deixar dúvida sobre o que é ficção e o que é realidade na vida das personagens. Este limite incerto é trabalhado propositalmente, explorando as possibilidades ilimitadas que o cinema oferece, porém não é tão incomum nos depararmos com situações cotidianas que parecem fugir da realidade, diálogos diante dos quais somos forçados a interpretar os diversos personagens que inconscientemente criamos – e estas interpretações não são necessariamente pejorativas –, ou mesmo situações para as quais imaginamos caminhos completamente inviáveis, tal qual um roteiro de ficção, apenas pelo deleite de sonhar com o que sabemos que não acontecerá.

Este limite entre real e imaginário que atua diariamente dentro de cada um de nós costuma passar despercebido. O mundo do cinema que Gerbase retrata é capaz de chamar a atenção para a possibilidade do irreal, da expressão dos sonhos que por vezes reprimimos sem perceber, mesmo diante da dura realidade, e dos prazeres que a representação na vida cotidiana pode proporcionar, já que atuar e encarnar personagens na vida “real” é obrigatório para todos, ainda que muitos não tenham consciência disso. A diferença entre as pessoas que atuam de forma deliberada não está relacionada ao caráter ou à sinceridade, mas ao prazer que os personagens da vida real podem proporcionar. Sem medo e sem culpa.



quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Um dia, um gato (Až přijde kocour)

Este filme foi produzido na Tchecoslováquia em 1963. Escrito e dirigido por Vojtěch Jasný, seu enredo simples me lembrou algumas histórias de Saramago por pegar uma ideia inusitada e desenvolvê-la com muita competência para imaginar como as pessoas se portariam caso tal fato realmente acontecesse.

Aqui o inusitado é um gato que usa óculos escuros, pois quando sua visão está livre as pessoas mudam de cor de acordo com seus atos e sentimentos. Assim os apaixonados ficam vermelhos, os desleais amarelos, as pessoas mentirosas e hipócritas tornam-se roxas, etc. A ideia de expor de alguma forma o que as pessoas escondem, muitas vezes até delas mesmas, não é tão nova e já foi explorada de várias formas no cinema e na literatura, mas é com simplicidade e misturando elementos do universo das crianças que o diretor dá destaque à sua obra.

No início do filme o personagem Oliva (Jan Werich) resume com sua primeira frase o roteiro: “Vou contar uma estória com mais verdade que fantasia.” e segue observando do alto de uma torre os habitantes da pequena cidade. Vemos que cada um tem um ponto a ser criticado, portanto, ainda que a acusação não seja grave, Oliva indiretamente desconstrói a dicotomia de bons e maus, mostrando a diversidade que mesmo sendo tão óbvia, costuma passar desapercebida, e as pessoas que buscam a imagem de um comportamento exemplar também têm seus defeitos.

A fantasia, que segundo o personagem é menor que a verdade, é o inusitado, o impensável que costuma ficar no mundo dos sonhos, trazido à tona com a figura do gato que faz com que as pessoas mudem de cor. A verdade pode ser encarada como o desdobramento da história, ou seja, a hipótese de como as pessoas reagiriam se aquilo realmente acontecesse.

Na pequena cidade vimos que ao serem reveladas as cores das pessoas de acordo com seus atos, os apaixonados ficaram envergonhados, por vezes surpresos com a própria cor vermelha ou ao verem a pessoa ao lado em escarlate. Até aqui tudo seria divertido após o impacto inicial; uma forma de lidar com a atração de forma lúdica – como deveria ser cotidianamente. Mas o mágico felino não revelava apenas a paixão e muitos ficaram amarelos, cinzas, roxos, por vezes a mesma pessoa mudava de cor, mostrando a heterogeneidade dos sentimentos, o que certamente causaria problemas para muita gente.

Haveria uma solução simples para alguns casos, afinal um mentiroso poderia simplesmente mudar sua conduta para livrar-se da cor que o acusa, porém os poderosos que de repente se viram em cores relacionadas a atos constrangedores tentaram o caminho mais comum ao longo da história: matar o gato. O pobre animal aqui é a pequena parte da fantasia ao qual Oliva se referiu, mas podemos pensar na forte censura do regime autoritário vigente no leste europeu durante o pós guerra, sendo o elemento denunciador qualquer um que tentasse desmascarar alguma falcatrua do governo, feito um gato mágico que pudesse indicar os mentirosos, corruptos, torturadores, etc.

Curioso é pensar que em uma sociedade extremamente dinâmica, com desenvolvimento tecnológico galopante e constantes quebras de barreiras – como a que isolava a antiga Tchecoslováquia – um filme com quase meio século não se torna anacrônico. Por mais que a censura não atue de forma tão direta e agressiva na maioria dos estados como já vimos no passado, caso apareça um gato mágico moderno capaz de denunciar o que foi jogado para baixo do tapete, através de um site que revela a ligação de governantes com tortura, crimes de guerra, preconceito, etc, a reação não será a mudança de conduta para agir de acordo com as expectativas da população, mas sim matar o gato, prender o administrador do site, ou o que quer que seja preciso para poder agir irresponsavelmente.
 
 

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Cão sem dono

A ideia de um cão sem dono remete de imediato a duas possibilidades, uma é a liberdade proporcionada pela ausência de alguém que, por ter posse, têm também direitos sobre sua propriedade; a outra é a falta dos cuidados que um dono pode proporcionar, implicando em sentimentos de solidão e desamparo.

Através do personagem Ciro (Júlio Andrade) os diretores Beto Brant e Renato Ciasca conseguem mostrar esses dois caminhos. Focado em um protagonista bastante intimista e fechado em si mesmo, aos poucos o longa nos proporciona romper as barreiras que o personagem ergue em torno de si, para que possamos mergulhar em seus sentimentos. A princípio não é fácil, mas entre os comportamentos extremos de Ciro é possível encontrar conflitos muito comuns, gerados pela projeção do amor entre pais e filhos na vida adulta.

O personagem leva uma vida espartana em um apartamento pequeno e quase sem mobília. O espaço é dividido com o vira-lata sem nome, afinal só os donos podem escolher nomes e Ciro vê o cão como um amigo. Se por um lado a profissão de tradutor (de russo) não lhe possibilita muito mais conforto que a vida atual, forçando o rapaz a depender da ajuda financeira dos pais, por outro Ciro não se incomoda com a simplicidade material que o cerca e não hesita em recusar um emprego que não corresponde às suas expectativas.

É com a presença de Marcela (Tainá Müller) que a segurança de Ciro será colocada em xeque, pois a princípio ele não demonstra grande afeto pela moça, como era de se esperar pelos poucos elementos que temos sobre sua vida, e a relação parece ser sustentada pela sonhadora modelo, ratificando o estereótipo reducionista de que a mulher valoriza mais os sentimentos.

Os percalços que afastam o casal podem ser encarados como desejados por Ciro, mas é diante da perda que os sentimentos, antes blindados pelo personagem introspectivo, vêm à tona. Consequentemente só então ele sente o peso do isolamento, tendo que buscar conforto com o porteiro Elomar (Luiz Carlos Vasconcellos Coelho), cuja experiência de vida poderia ajudar muito, mas certas coisas só aprendemos vivenciando.

A trama do protagonista é muito bem fechada quando os diretores mostram mais detalhes sobre sua família. A partir daí fica mais fácil compreender o isolamento de Ciro, como uma forma de negar a atenção exacerbada dos pais e buscar a individualidade. A aparente confusão do personagem, que primeiro demonstra frieza para depois desabar diante da ausência de Marcela, segue a mesma linha, pois a atenção que a moça dava ao cão sem dono o remetia aos mimos maternos. É de se esperar que se Ciro se afastou dos pais para buscar a individualidade a distância de Marcela também lhe agradará, mas há dois pontos relevantes: o primeiro é a dificuldade de nos livrarmos de fato da forma com que fomos criados, principalmente quando essa criação está baseada no conforto que a proteção familiar pode oferecer; o segundo é que ao optar por viver sozinho Ciro mantinha o controle da situação, ao passo que a separação da namorada fugia de seu arbítrio, gerando toda a angústia que explodiu em crise.

É interessante comparar esse filme com o trabalho seguinte de Beto Brant, “O Amor Segundo B. Schianberg”, pois ainda que não tenha tido essa intenção é possível olhar para o casal retratado (encenado por Marina Previato e Gustavo Machado) como uma alternativa para o relacionamento de Ciro e Marcela, pois, com estereótipos semelhantes, o casal do segundo filme mostra mais maturidade para encarar as dificuldades do relacionamento, de forma que conflitos são resolvidos em conjunto, ao invés de algumas atitudes isoladas que tentam prever sentimentos.

São duas obras bem intimistas e reflexivas, que nos mostram aspectos interessantes do comportamento complexo, e muitas vezes incoerente, das pessoas – dificultado pela necessidade de interagir com outras pessoas igualmente complexas.


segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O abraço corporativo

O documentário dirigido pelo jornalista Ricardo Kauffman começa com a apresentação de Ary Itnem, a princípio mais um consultor de RH que vai da psicologia à auto-ajuda através do “abraço corporativo”. Supostamente a técnica consiste em eliminar o afastamento dos companheiros de trabalho, proporcionado pela tecnologia excessiva, através de abraços entre funcionários.

Em meio a tantos consultores de RH que investem em técnicas alternativas para melhorarem os resultados de empresas o Sr. Ary Itnem conseguiu seu espaço e foi alvo de grandes veículos de comunicação, concedeu entrevistas para revistas, rádios e expôs sua técnica em programas de TV. Tudo plausível, não fosse pelo fato de Ary Itnem não ser nada mais que o bom e velho picareta! Encenado pelo ator Leonardo Camillo, o consultor foi uma invenção de Kauffman que nos mostra por um lado a fragilidade das pautas da imprensa – já que muitas vezes os repórteres vão às ruas apenas para ratificar o que já foi concluído na redação – e por outro o poder de convencimento da mídia.

O longa não aborda nenhuma forma de controle dos veículos de comunicação, mas com o crescimento do discurso dos que valorizam o controle social da mídia, é possível que o trabalho de Kauffman abra discussões interessantes neste sentido. A liberdade de imprensa é indiscutivelmente fundamental e este argumento é a base dos que bradam contra qualquer tipo de controle, porém podemos associar este fato com uma das frases criadas pelo personagem Ary Itnem: “tudo não é verdade”. Ou seja, a liberdade de imprensa deve ser ilimitada, mas o que acontece quando essa liberdade proporciona a ampla divulgação de uma mentira?

O objetivo do documentário não é difamar os veículos ou os profissionais que deram atenção ao consultor inventado, essa é apenas uma invenção que ganhou certa projeção nacional sem grandes consequências, e qualquer trabalho mais dedicado revelaria a fraude, que chegou a ser registrada em cartório por Kauffman. O problema é que com a mesma facilidade com que Ary Itnem foi apresentado equivocadamente como profissional, qualquer mentiyra pode ser trabalhada intencionalmente pelos detentores dos meios de comunicação para ludibriar a população.

É claro que difundir um boato como verdade não é fácil e costuma prevalecer a velha máxima de que a mentira tem perna curta, mas imaginemos que para aquecer a economia um estado estabeleça entre a população o medo de ser atacado por armas químicas, justificando assim um ataque militar ao detentor de tais armas. Quando a farsa for revelada é possível que o estrago já esteja feito.

Não precisamos chegar a um exemplo tão extremo, basta pensarmos que em uma disputa presidencial a mídia talvez tenha o poder de implicitamente guiar as campanhas presidenciais ressaltando temas pessoais, como religiosidade, ao invés de propostas de governo que de fato terão influência sobre a população.

Como dito acima, o filme não tem esse viés e seu foco concentra-se na crítica à forma como os editoriais buscam as matérias, pressionados por uma série de fatores que somados levam à falta de rigor na análise dos fatos. A necessidade de produzir conteúdo é cada vez maior e se intensificou muito após a popularização dos portais de notícias virtuais, além da pressão exercida pela concorrência, pois se um grande veículo apresenta um furo de reportagem os demais buscarão suas fontes, nem sempre fidedignas, para apresentar sua versão dos fatos o quanto antes.

A associação com o controle social da mídia, que já existe em diversos países democráticos, é um desdobramento possível do que Ricardo Kauffman apresenta, pois é um tema relativamente obscuro que a mídia – não por acaso – não faz a menor questão de esclarecer, optando geralmente por fazer a falsa associação do controle social à censura de conteúdo, que é evidentemente inaceitável – tão inaceitável quanto esconder-se atrás do discurso em prol da liberdade para divulgar matérias no mínimo capciosas.


segunda-feira, 22 de novembro de 2010

Senna

Uma obra que junta duas das minhas grandes paixões, cinema e automobilismo, não poderia ficar de fora deste blog. Talvez as expectativas tenham sido um pouco frustradas pelo olhar técnico, tanto do ponto de vista cinematográfico quanto pela Formula 1 em si, de forma que o documentário acaba sendo mais produtivo para quem quer um resumo da carreira de Senna do que para os que conhecem bastante a trajetória do piloto.

Diante dos inúmeros caminhos que o documentário poderia seguir, o diretor britânico Asif Kapadia escolheu o que deve ser mais fácil para alguém que provavelmente não conhece muito sobre o esporte, ou seja, ratificar a ideia de mito que sempre marcará qualquer lembrança do piloto. Assim, todo o roteiro escrito por Manish Pandey explora os elementos da carreira de Senna, que de fato são bastante favoráveis para desenvolver uma verdadeira lenda, e a montagem utiliza as técnicas cinematográficas, como trilha sonora, depoimentos e principalmente a ordem das sequências exibidas, para emocionar e conquistar o público.

Socialmente dá para identificar através do filme um comportamento bastante característico dos brasileiros em relação aos seus ídolos esportivos, refletido pelo grande carisma que tinham por Senna. Comparando com outros esportes notamos grande apoio da torcida do país, ainda que não tenham grande identificação com a modalidade em questão. É válido o argumento de que Senna trouxe alegria para um país que vivia uma fase bastante difícil – ainda que a opinião de Arnaldo Jabor inserida no filme tenha sido, como sempre, dispensável –, porém o que contribui para a criação do mito é o comportamento do esportista, também valorizado pelos torcedores, ou seja, a vontade de vencer prevalecia mesmo quando não havia chances de vitória, e a alegria de uma vitória fazia com que o sujeito tímido explodisse em grande euforia. Esse fato também é valorizado no documentário através da forma como são apresentados Alain Prost e Jean-Marie Balestre, que se por um lado tiveram comportamentos lamentáveis em muitas situações, por outro não são exceções no mundo esportivo, em que muitas vezes a política torna-se decisiva, como indica o próprio Senna.

Aos fãs de Formula 1, que acompanham os campeonatos independente da presença de Senna, o filme pode decepcionar um pouco, tanto pelas poucas cenas de corridas, quanto pela limitação destas cenas aos momentos decisivos, para vitórias ou polêmicas. Neste sentido fica evidente que Asif Kapadia teve contato com a Formula 1 exclusivamente para a montagem do documentário, pois ressaltar a temporada de 1993 sem ao menos fazer menção à corrida perfeita de Donington Park pode ser interpretado como um erro grave do filme, assim com a ausência de cenas clássicas tais quais as voltas empunhando a bandeira brasileira após as vitórias ou a carona na Willians de Nigel Mansel. Neste sentido o documentário “Uma estrela chamada Ayrton Senna” (dirigido por Ellen Goosenberg Kent em 1998) comete a mesma falha de inserir pouco material de corrida, com o agravante de incluir uma trilha sonora terrível. Já o filme “Grand Prix”, dirigido por John Frankenheimer em 1966, conta com imagens fantásticas, mas peca por enfatizar os romances e intrigas fora das pistas, ao invés das corridas.

Mesmo com algumas críticas, é inegável que o documentário de Kapadia agrada e muito, afinal foi nitidamente montado para emocionar e agradar aos fãs do piloto. É possível lembrar (ou conhecer) fatos importantes na carreira de Senna, reviver as emoções da primeira vitória no Brasil, a garra com que buscava os resultados perfeitos, etc. Resta aos fãs da Formula 1 como um todo esperar por uma obra complementar, que mostre o piloto por trás do mito, livre de interesses comerciais do cinema e que se preocupe mais com as disputas de corridas, que evidentemente ocorriam também fora das pistas, mas de forma muito mais psicológica do que podemos ver com a direção de Kapadia, e nas quais Senna também era campeão.




quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O invasor

Essa é uma das tantas obras literárias adaptadas para o cinema. A particularidade é que a adaptação não foi feita após o lançamento do livro, mas com a obra ainda inacabada o roteiro começou a ser adaptado em um trabalho conjunto do autor Marçal Aquino e do diretor Beto Brant. Marçal já havia desistido de concluir seu livro e retomou o trabalho algum tempo depois, de forma que as obras foram concluídas quase simultaneamente. Há uma edição bem interessante do romance seguido do roteiro adaptado, lançado pela editora Geração Editorial.

A estrutura do enredo é bastante semelhante nas duas obras, mudando apenas a ênfase de alguns personagens, mas a diferença fundamental é que no livro a história é narrada em primeira pessoa, pelo protagonista Ivan (no filme Marco Ricca). A mudança da narrativa do filme proporciona o detalhamento de ações fora do olhar do protagonista, e consequentemente a pluralidade de opiniões, ausente no livro.

Como base o enredo conta com o choque entre duas classes que costumam estar separadas por um grande abismo, e os desdobramentos que um encontro em tais circunstâncias pode ter. Dois sócios minoritários – Ivan e Giba (Alexandre Borges) – resolvem se livrar do sócio majoritário Estevão (George Freire), ignorando a amizade desde a faculdade na Escola Politécnica, a família do sócio, e as consequências do crime. Para o assassinato contratam Anísio (Paulo Miklos, em atuação de grande destaque), que encara o serviço com a naturalidade de quem já está habituado às tais práticas.

A angústia de Ivan, que é o único a demonstrar arrependimento e a tentar minimizar a participação no plano, como se consentir um crime fosse menos grave que executá-lo, fica mais evidente no livro, já que como narrador de todos os fatos, somos guiados a interpretar os acontecimentos sob seu próprio ponto de vista. O filme trabalha com a construção da imagem para indicar o perfil dos personagens sem o aprofundamento que a narrativa escrita proporciona, de forma que são visíveis os estereótipos de classe média/alta, a periferia através da zona leste de São Paulo, o escritório da construtora dos sócios, etc.

Esses estereótipos e seus conflitos abrem espaço para uma análise sobre os campos de possibilidades de cada personagem do enredo, pois ao contrário do que esperavam os mandantes do crime, a vida não seguiu seu ritmo normal, já que Anísio não estava disposto a se contentar com o preço cobrado pelo assassinato e tornou-se uma sombra na vida dos mandantes do crime, ocultando no escuro a origem de sua influência sobre os sócios.

Qualquer relação entre um assassino e os mandantes do crime é marcada por um pacto velado de silêncio, sem o qual é praticamente impossível que apenas um dos lados seja descoberto, porém ao pensarmos nos campos de possibilidades, descritos por Pierre Bourdieu, é inegável que caso o crime venha à tona e os envolvidos sejam presos, o mandante do crime tem mais a perder. Mantendo a análise sobre o caso específico do filme, o autor mostra que a falta de escrúpulos é a mesma, tanto para um matador profissional, cujas atitudes costumam ser explicadas pelas faltas de oportunidades ao longo da vida, quanto para dois engenheiros, donos de uma construtora, com muitas oportunidades, mas que agem em prol do lucro pessoal. Desta forma a grande diferença está nas hipóteses plausíveis de acordo com o estilo de vida de cada personagem, ainda que a justiça seja, em tese, igual para todos.

Para qualquer pessoa que ganha a vida com atividades ilegais a prisão é evidentemente uma possibilidade muito mais plausível do que, neste caso, para empresários com nível superior que até então, aparentemente, mantinham suas vidas dentro da lei. Esta ideia fica clara em uma fala de Ivan, que insiste no fato de que é uma boa pessoa que cometeu um deslize, diferente de Anísio que descreve uma execução com a naturalidade de quem pratica qualquer ação cotidiana.

O impacto que o filme causa em quem assiste vem exatamente por mostrar de forma crua e direta (mesmo com as várias formas de violência sempre implícitas e nunca escancaradas) que estruturalmente os personagens são muito parecidos, e seus detalhes variam, para manter a base da análise em Bourdieu, de acordo com o capital cultural e social de cada um. A dúvida pertinente, e talvez assustadora, que fica é se vemos apenas uma ficção narrada em um filme, ou a crueldade de algumas ações está mais perto do que imaginamos.


quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Tropa de Elite 2 - O inimigo agora é outro

Ao lançar o filme Ônibus 174, mostrando a formação de uma pessoa à margem da sociedade, José Padilha já havia anunciado que os próximos passos seriam a formação de um policial corrupto, como vemos em Tropa de Elite, seguido da formação de um político corrupto, para a qual o diretor aproveitou o sucesso do Capitão Nascimento (Wagner Moura) e sua tropa adaptando à continuidade da história a relação de policiais e certos políticos.

Tropa de Elite é um filme simples. Em linhas gerais vemos nas telas um recorte bastante fiel à forma como age tal tropa, ou seja, seleção rigorosíssima para ostentar uma caveira na farda e torturar favelados antes da execução sumária. Não se trata de atirar primeiro e perguntar depois, já que perguntar, para eles, só é válido no momento da tortura, contra a qual lutamos por cerca de vinte anos e pela qual trabalharam políticos posteriormente famosos como Romeu Tuma, ex-chefe do Dops falecido recentemente sem nenhuma punição pela barbárie. O surpreendente é que mesmo a tolerância zero sendo aplicada há anos nas favelas sem nenhum resultado positivo, a leitura de muitas pessoas em relação ao Tropa de Elite foi que a realidade deveria ser como o filme, sem perceber que tal metodologia já vem sendo aplicada sem sucesso.

Difícil dizer o quanto essa leitura surpreendeu o diretor, mas o fato é que a interpretação foi extremamente abrangente, atingindo várias camadas sociais e levando até pessoas ligadas ao cinema, como Arnaldo Jabor, a dizer que quando foi ao cinema ver Tropa de Elite, “queria vingança”. Pertinente deixar claro que pelo trabalho recente do crítico, uma bobagem a mais ou a menos não faz muita diferença. Podemos ver que Padilha trabalhou parte do segundo filme para tentar desfazer certos equívocos, colocando até o professor Fraga (Irandhir Santos) dando uma aula detalhada para mostrar que, continuando a reprimir marginais sem prevenir a formação dos mesmos, teremos em pouco mais de setenta anos toda a população brasileira encarcerada. É óbvio que tal extremo nunca será atingido, mas dificilmente o diretor poderia ser mais didático com os adeptos da simples tolerância zero.

O problema da segurança pública nas grandes cidades tem solução muito mais complexa do que um arsenal de metralhadoras, e o que vemos neste filme é que as próprias origens do crime vão além dos traficantes que dominam os morros. Padilha aborda diversas formas de violência, desde as mais diretas como milícias e continuidade dos policiais corruptos do primeiro filme, até agentes que têm suas ações nos bastidores do crime, como apresentadores sensacionalistas que utilizam o status de formadores de opinião para atuarem como manipuladores de opinião. Chega a ser assustador pensar que o personagem Fortunato (André Mattos) é a caricatura de tantos apresentadores reais como Wagner Montes no Rio ou José Luiz Datena em São Paulo, sendo esse alerta um dos grandes potenciais históricos do cinema.

Ao longo do filme o Capitão Nascimento percebe que os tais vagabundos são a ponta do iceberg, cuja base não pode ser torturada e executada por uma série de fatores. A política, que a princípio deveria ser o primeiro passo para a solução, pode ser um sistema estruturado solidamente para a manutenção do status quo, agradando alguns poucos que conseguem ser beneficiados mantendo a ilusão de que os verdadeiros culpados são os que menos têm poder. É possível notar que após a aula do professor de história o desenvolvimento do filme é outro passo, mais complexo, para desmistificar as interpretações equivocadas do primeiro filme. Os fãs de Tropa de Elite que entraram no cinema e vibraram nas primeiras cenas, com o Capitão Nascimento desconstruindo o trabalho dos favoráveis aos direitos humanos, podem com um pequeno esforço perceber que o personagem evolui desde o começo do primeiro filme até o final do segundo.

A complexidade do Capitão linha dura, que cativa por mostrar também o ser humano por trás da farda e da caveira, contribui muito para o sucesso do filme, assim como para a interpretação do mesmo. Em oposição às cenas de ação que tanto atraem o público, sendo em uma delas quase inevitável a comparação com o hollywoodiano Rambo e sua metralhadora desenfreada, vemos a narração reflexiva de um homem que enxerga os próprios erros, se arrepende de algumas atitudes, se preocupa com a família, ou seja, não é uma simples máquina de guerra.

Inicialmente Tropa de Elite não teria nenhuma sequência, agora Padilha já não nega a hipótese de continuidade. Com mais público e menos polêmica que o primeiro filme – talvez pelo consenso de que os políticos são corruptos ser maior que a forma de atuação da polícia – o diretor indicou os problemas nos bastidores da violência, uma possibilidade para a continuação seria dar um passo a frente na alternância de poder nas favelas. Há pouco tempo muitos acreditavam ser impossível livrar os morros dos traficantes; as milícias provaram ser possível, mas as comunidades apenas mudaram seus credores. Atualmente a nova medida apresentada como mais eficiente pelos políticos – os mesmos retratados em Tropa de Elite 2 – são as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora), resta saber se a eficiência do panoptismo, ou seja, o monitoramento onipresente descrito por Foucault, citado no primeiro filme, trará mesmo benefícios ou é mais um engodo como a política de tolerância zero.

A narração do Capitão Nascimento deixa claro o óbvio: a corda sempre arrebenta para o lado mais fraco. Resta à sociedade perceber que ela é o lado mais fraco.



quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Como esquecer

Com um tema comum a todos a diretora Malu Martino exibe sua versão cinematográfica para do livro homônimo, mostrando o período de transição entre dois ciclos da vida da protagonista Júlia (Ana Paula Arósio). Dão suporte à narrativa os amigos Hugo (Murilo Rosa) e Lisa (Natália Lage), ambos também em transição por desilusões amorosas, porém essas desilusões têm nuances relevantes. Júlia vive uma separação, Hugo ficou viúvo e Lisa se depara com uma gravidez indesejada, que abre espaço para uma leve pincelada na recente polêmica aberta pela campanha presidencial. Os desafetos são apenas citados, nunca mostrados. Não há rostos, já que estes poderiam ter qualquer forma, sem alterar a estrutura dos sentimentos envolvidos.

A república montada pelos três amigos foi uma ótima metáfora para retratar as personagens, principalmente Júlia. A casa tem uma linda arquitetura, porém está maltratada pelo tempo e precisa de reformas, já sua moradora não exibe a exuberância característica da atriz, ao contrário, tem a expressão de quem está cansada de sofrer e por mais que tente manter as aparências, não consegue iniciar a reforma que sua vida precisa.

Para além das aparências físicas, a república fica no Rio de Janeiro, só que distante do centro, em Pedra de Guaratiba – pequena, tranquila, até isolada –, com cenas entrecortadas com a universidade em que Júlia dá aulas de literatura inglesa, como um pólo oposto da casa a beira mar. Entre esses dois extremos a professora revela através de suas atitudes o orgulho ferido, que dispara contra todos na tentativa de se isolar e buscar a tão sonhada quanto inexistente tranquilidade. Por outro lado, nas horas mais difíceis prevalece, ainda que involuntariamente, a necessidade do conforto dos que estão próximos e que chega pela vida social intensa que uma metrópole pode proporcionar por sua diversidade.

É claro que os conflitos e incoerências da vida de Júlia podem ser encontrados na vida de qualquer pessoa. Traumas como o fim de um relacionamento, independente de como isso aconteça, só realçam determinados sentimentos que a vida moderna, bem ou mal, nos impõe. Ao mesmo tempo que temos o individualismo exacerbado como comportamento quase imposto pela sociedade moderna, convivemos ainda com valores tradicionalistas extremamente consolidados por séculos; nas cidades vemos ainda a infinidade de possibilidades que a vida urbana nos proporciona caminhar lado a lado com a solidão urbana das grandes metrópoles.

Passando pelos obstáculos cotidianos cabe a cada um aprender a lidar com estas incoerências de sentimentos conflituosos. No filme o roteiro flerta muitas vezes com o senso comum, porém cada personagem segue seu rumo da maneira que considera mais conveniente para encerrar um ciclo doloroso e dar continuidade às atividades cotidianas. A expectativa maior naturalmente volta-se para Júlia e suas possibilidades. Mulher madura e culta, pode encontrar a síntese entre o individualismo e o aconchego de outras pessoas de diversas formas, e independente de qual seja (deixando em aberto para não estragar o final) a atitude tomada inevitavelmente diz muito sobre o aprendizado que cada um extrai de suas experiências pessoais.

Voltando ao início, não há grandes referências sobre os amores passados, mas a pessoa por quem Júlia sofre chama-se Antônia. O fato da protagonista ser homossexual, assim como seu amigo Hugo, é tratado com a naturalidade necessária para deixar claro que independente de orientações sexuais, os sentimentos que permeiam os seres humanos são os mesmos. Em tempos em que a sexualidade do indivíduo é alvo de disputas entre políticos, religiosos, cientistas, etc., vemos sob o olhar bastante sensível de Malu Martino e através da atuação impecável dos atores que a sexualidade não é um diferencial na personalidade. Havendo respeito ao outro cada um solucionará as dificuldades que a vida naturalmente impõe da maneira que for mais conveniente, como entre os três amigos retratados.

 

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Eu matei minha mãe (J'ai tué ma mère)

Viver costuma ser difícil. Quando nos livramos do engodo da felicidade e lançamos um olhar crítico, sem saudosismo, para nosso passado e presente vemos quantos percalços cercam os bons momentos e quantas lutas temos que enfrentar para chegar a alguns momentos de satisfação. Quando crianças, enfrentamos medos que pelo ponto de vista adulto são bobagens passageiras, mas para quem tem pouquíssima experiência de vida as reações podem ser equivalentes às de um executivo a beira da falência. Depois que nos tornamos adultos intensificam-se os deveres, as responsabilidades e a necessidade de sermos soberanos em nossas decisões, ou seja, fica cada vez menor a possibilidade de recorrer à ajuda dos pais. Entre essas duas fases distintas está Hubert (Xavier Dolan, que escreveu o roteiro e atua como protagonista do filme, baseado em sua própria história).

O fato de um filme sobre um adolescente ter sido escrito por quem viveu há pouco as experiências relatadas ressaltam pontos pouco explorados pelo senso comum ao falar desta delicada etapa da vida. Longe de atingir a emancipação da vida adulta e com medos infantis remanescentes, a adolescência é a fase em que vivemos intensamente os problemas dos dois períodos e quando exteriorizamos as consequências deste bombardeio de dúvidas, angustias e medos, o diagnóstico mais comum dado pelas pessoas próximas vem carregado de culpa, que só piora a confusão habitual.

Essa transição fica bastante clara nos cortes abruptos de comportamento de Hubert, que passa de agressões severas e requisição de liberdade para cobrança de atenção e amparo. Qual reivindicação é sincera? Ambas. O que torna a postura dos pais igualmente difícil.

No filme Chantale (Anne Dorval) é a mãe de Hubert e tem atitudes que beiram o ridículo – com uma construção de personagem evidentemente parcial, dado que o autor do filme é o filho –, mas absurdos e exageros a parte, as ações e reações do filme são plausíveis. Igualmente incoerente, o comportamento dos pais transita pelo desejo de emancipação dos filhos, para que estes cresçam e sejam independentes, e o desejo de laços eternos impostos pela vontade de ter a cria sempre por perto. Como se não bastasse, boa parte dos pais (inclusive Chantale e o pai de Hubert, que o vê duas vezes por ano) não se contentam com a felicidade do filho, pois estes devem ser felizes da maneira que os pais esperam. Desta forma, não basta que o filho trabalhe, pois deve seguir o ramo que os pais escolhem; a faculdade deve ser a escolhida pelos pais antes mesmo da criança nascer; o relacionamento deve passar pelo crivo dos pais e começar quando estes acharem prudente, etc.

Dizer que tanto o papel dos pais quanto o dos filhos é difícil também é uma fuga cômoda das responsabilidades de cada um. É relevante pensarmos que nessa relação os adolescentes têm menos vivência e por mais que tenham comportamento conflituoso e incoerente, suas personalidades refletem muito dos laços familiares ao longo da vida – ou mesmo a ausência destes laços. Por outro lado, os pais que reclamam tanto dos “aborrescentes” tiveram mais de uma década para uma socialização da criança, baseada na educação mútua – afinal ter um filho também é uma novidade na vida de qualquer um – e o desenvolvimento de uma relação que não desemboque em explosões de fúria e cobrança de afeto como vemos no filme de Xavier Dolan.

Em suma, após vários anos em frente à TV enquanto os filhos crescem sozinhos, dá muito mais conforto aos pais empurrar a culpa do comportamento rebelde de um adolescente aos amigos, escola, relacionamentos, drogas e tantos outros supostos males que rondam os filhos, sempre fora da alçada dos pais, para que estes possam adotar a postura de competentes dentro do que lhes cabia.

Vi diversas críticas indicando o filme para quem vive a mesma situação relatada, com as mesmas relações conflituosas. É de fato válido, porém acredito que seja ainda mais indicado para os pais que ainda não chegaram nesse extremo, já que muitos problemas podem ser evitados, ao invés de combatidos.


terça-feira, 5 de outubro de 2010

Pantaleão e as visitadoras (Pantaleón y las visitadoras)

Em seu romance Mario Vargas Llosa utiliza de muito humor para, através de um serviço bastante inusitado dentro do exercito peruano, criticar a instituição e aspectos sociais. A primeira transposição da obra para o cinema foi feita pelo próprio autor em 1975, mas o próprio Llosa admitiu a inexperiência e o resultado insatisfatório da obra. Em 1999 Francisco Lombardi apresenta a competente adaptação, que mantém os aspectos centrais do livro mesmo sem contar com os recursos de linguagem adotados pelo escritor. Talvez a única grande mudança seja a omissão do enredo paralelo sobre os irmãos da arca, através do qual o autor mostra a síntese de rituais tribais e elementos católicos.

A maior parte do livro é narrada através de cartas, documentos oficiais do exército, reportagens e narrativas que descrevem detalhadamente, com evidente parcialidade por parte do personagem autor, que dá veracidade ao relato. Complementando os documentos Llosa nos apresenta diálogos intercalados, dando um ritmo diferente, dinâmico e real para a narrativa.

O tom de humor, mais intenso no livro que no filme pelas descrições mais detalhadas, fica por conta do inusitado, já que para conter a onda de estupros na cidade de Iquitos por parte dos soldados o exército escolhe o mais que metódico capitão Pantaleão Pantoja (Salvador del Solar) para coordenar um serviço de visitadoras para os soldados, eufemismo para as prostitutas contratadas pelo exército para sanar as necessidades dos militares. Assim esses dois estereótipos aparentemente tão distintos se aproximam, porém mantendo as respectivas características principais.

O capitão Pantoja tem o comportamento exemplar e passa a imagem que o exército cria sobre a instituição para a sociedade, ou seja, disciplinado, obstinado e sem vícios. Tudo que o militar sabia fazer era obedecer a ordens, de forma brilhante e com dedicação total, que a princípio deixa qualquer superior do exército satisfeito. Talvez o problema do capitão fosse sua falta de senso crítico – que em certo nível é indispensável aos militares – a ponto de não diferenciar a essência da aparência, ou seja, de não perceber que por trás da aparente seriedade e responsabilidade militar há a necessidade de agir sorrateiramente, seja para manter um serviço de visitadoras, como satirizado por Llosa, seja para tomar o poder o estado, como a América Latina viu na segunda metade do século XX e, por incrível que pareça, já presenciou por três vezes em apenas dez anos deste século, com a tentativa frustrada na Venezuela em 2002, a mais eficaz em Honduras sete anos mais tarde e a atual ofensiva no Equador, que ainda é cedo para sabermos as consequências.

Os dois pontos mais marcantes da obra ficam por conta da crítica à instituição militar, incapaz de solucionar problemas cujos interesses não sejam os do próprio exército, sem medir esforços ou considerar consequências de seus atos; e o machismo latente da sociedade, expresso também pelos civis, que por um lado se apóiam no moralismo para criticar o serviço de visitadoras e por outro reivindicam o mesmo serviço, na qualidade de reservistas do contingente militar.

A síntese desses dois pontos fica por conta da relação entre Pantoja e Colombiana (Angie Cepeda), que no livro era conhecida como Brasileira, por ter vivido em Manaus. Por mais formal que o militar possa ser ele deve lidar com os próprios sentimentos, e o faz de forma bastante curiosa. Faz uso de sua patente e tenta manter qualquer tipo de atitude contrária às regras em segredo, por outro lado é extremamente penoso lidar com sentimentos de posse e ciúme.

Um ponto em que o filme se destaca em relação ao livro é a cena em que visitadoras são violentadas. Sob o discurso de proteção às mulheres da cidade, pouco importa o que aconteça nos quarteis, desde que as aparências sejam mantidas e que os escândalos sejam encobertos de forma eficiente, sem abalar a estrutura machista e conservadora, como já nos indicava Chico Buarque em 1979 com “Geni e o Zepelin”, que pelo conteúdo poderia tranquilamente servir de trilha sonora para a referida cena.

Já se passaram quase quarenta anos desde o lançamento do livro, trinta desde a polêmica música de Chico e dez desde o lançamento da adaptação do livro para o cinema. Muitas mudanças em relação ao machismo e a postura muitas vezes patética das forças militares?

 

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Amadeus

O diretor Milos Forman apresentou sua versão para a conturbada vida de Wolfgang Amadeus Mozart através do cinema. Em meio à tantas qualidades do filme chamam a atenção as cenas brilhantes em que os pensamentos dos músicos são exibidos como música de fundo, narrando cada passo da música. A obra ficcional, longe do rigor científico que podemos encontrar no livro “Mozart – Sociologia de um gênio”, de Norbert Elias, possui um lado lúdico mesclado a diversos fatos reais da vida do músico, o que nos permite fazer um interessante paralelo entre as duas obras em questão.

Vemos que o filme inicia deixando claro quem é o narrador, no caso o músico Antonio Salieri, já velho e martirizando-se por ter matado Mozart. Portanto todo o filme é narrado do ponto de vista de Salieri, tratando-se de um relato pessoal e parcial. O diretor indica ser um personagem carente e solitário através do criado, que diante da recusa do músico em abrir a porta do aposento ameaça não visitá-lo nunca mais. As breves cenas no hospício para onde levam Salieri nos dão ideia de como eram tratados os loucos naquela época, extremamente coerente com as descrições de Michel Foucault em seus estudos sobre a loucura.

A figura de Salieri no filme é praticamente uma personificação da sociedade de corte descrita por Elias, velha, já enfraquecida e o principal obstáculo para o fracasso pessoal de Mozart. Sob a ótica sociológica o filme indica diversas nuances condizentes com as teorias de Pierre Bourdieu. Em seu relato pessoal o personagem Salieri indica que o pai de Mozart ensinou o filho a ser músico, diferente de seu pai, comerciante membro da nova burguesia, para qual provavelmente a música tinha como principal função entreter a corte. Este fato refuta, como toda a obra de Bourdieu, a ideia de que Mozart tinha “dom” para a música, pois ainda que suas primeiras obras tenham sido escritas de forma extremamente prematura, algumas com apenas quatro anos, este talento foi desenvolvido, possivelmente como supõe Elias, para chamar a atenção do pai enquanto este ensinava música à irmã mais velha. Assim vemos que o talento do compositor não era inerente à sua personalidade, mas construído socialmente.

Para a sociedade de corte tão marcante quanto o talento musical de Mozart era seu comportamento excêntrico de quem, apesar de sempre ter frequentado os palácios, nunca teve comportamento de nobres. Tom Hulce trabalha este lado do músico com atuação impecável no filme, mostrando os gestos espalhafatosos e o riso marcante – ainda que Mozart estivesse longe da aparência de um galã de cinema. Algumas piadas escatológicas do músico também foram indicadas no filme e esse comportamento também desagradava à corte. Neste ponto é bastante útil a obra “O processo civilizador” de Norbert Elias, na qual o autor mostra detalhadamente como é lento a apropriação de determinados hábitos pelas classes sociais. Ao retratar a família do músico o roteiro do filme não dá tanto destaque ao pai de Mozart, por restringir-se a um período em que o filho se distancia, e dá mais ênfase para a esposa, sendo que a cena em que sua sogra assiste um de seus espetáculos mostra bem como há um abismo entre os hábitos da corte e o comportamento dos que estão socialmente distantes da nobreza.

A grande diferença do habitus da sociedade de corte e da burguesia é notável e marcante durante toda a vida de Mozart e muitos pontos ficam latentes no filme não apenas no comportamento, mas também na obra do músico. Salieri reconhece a qualidade de suas obras, lembrando que aqui este personagem é encarado como a personificação da corte, porém isso não é suficiente para que Mozart deixe de ser um mero serviçal. Sua socialização teve o intuito de formar um músico de acordo com os padrões tradicionais, daí a dificuldade de seu pai aceitar a decisão de deixar a corte de Strasburgo, e em relação à sua obra, a complexidade das músicas de Mozart formava um estilo que não agradavam seu público-alvo. Muitas vezes isso é apresentado no filme quando Mozart é criticado por um suposto excesso de notas em sua música. No livro o sociólogo enfatiza que o sucesso só faria sentido para o músico se vindo da nobreza de Viena, talvez por isso o personagem do filme critique tanto a Itália e seus músicos, mas o paradoxo é que para atingir seu alvo Mozart teria que alterar seu estilo musical, simplificando obras que considerava perfeitas.

A ópera “Figaro” adaptada por Mozart e considerada por ele – no filme – a melhor já escrita mostra o conflito entre uma nobreza já fraca, porém ainda poderosa, e uma burguesia ainda fraca, que aos poucos ganhava espaço, mas ainda não tinha poder para impor seus padrões. A obra foi considerada um fracasso por não ter agradado a corte, novamente por alegação de complexidade, mas na verdade o campo musical que agradaria a nobreza é que diferia do campo que agradava a burguesia. Conforme a indicação do amigo de Mozart, se a obra “Don Giovanni” fosse apresentada para as classes populares faria sucesso, porém não o sucesso que seu autor considerava consagrador. O ponto mais claro da diferença entre o gosto musical da nobreza e da burguesia é notado quando o diretor do filme mostra a família Mozart assistindo a um vaudeville. O filho do músico gosta, já que sendo ainda criança não tem seu habitus consolidado e é socializado em meio àquele tipo de música, mas posteriormente ao falar sobre uma obra do mesmo estilo a Salieri (sociedade de corte) Mozart se refere pejorativamente, dizendo que não era tão bom por ser apenas um vaudeville.

Ao compor “A flauta mágica” Mozart sabia que nunca agradaria a nobreza, mas sim as classes mais populares. O empenho na composição que foi retratado no filme, em parte pelo dinheiro que proporcionaria, e a satisfação do compositor em executar a obra refletem bem a frase citada por Elias: “Você sabe muito bem que os melhores e mais verdadeiros amigos são os pobres. A riqueza não sabe o que significa amizade.” Em “A flauta mágica” o músico utiliza a linguagem popular – sem se preocupar com a dúvida da corte em fazer uma ópera em italiano ou alemão – e fala do amor, ou seja, do tema que tanto insistiu diante da nobreza, que sempre o viu com desdém, chegando a falar sobre viver como um príncipe sem pensar e definindo a sabedoria com a frase “uma mulher é muito melhor que vinho”, bebida muito associada aos nobres, aos quais seriam impensáveis tais referências em uma ópera.

Educado desde pequeno exclusivamente pelo pai e com o intuito de servir à nobreza, Mozart não poderia encontrar a consagração de outra forma, a não ser através do reconhecimento da classe a quem ele pretendia agradar. A loucura, que no filme Salieri desenvolveu em Mozart através do fantasma do pai, não é outra se não a que a sociedade de corte impôs ao músico, recusando-se a reconhecer sua obra e impondo-lhe indiretamente a composição de seu próprio réquiem.

Apesar das pesquisas de Bourdieu terem sido feitas ao longo do século XX podemos notar como algumas semelhanças podem ser traçadas com a época de Mozart, principalmente em relação ao habitus e a socialização. Mesmo a ascensão social, que hoje é mais comum em nossa sociedade, tem suas raízes naquela época, por isso notamos o peso do capital social, muitas vezes decisivo na manutenção ou alteração do status social do indivíduo, semelhante à vida de Mozart.


terça-feira, 14 de setembro de 2010

Como água para chocolate

Laura Esquivel lançou seu romance em 1989 e a própria escritora adaptou a obra para o roteiro do longa dirigido por Alfonso Arau. Desta forma o filme fica mais fiel ao livro, o que neste caso é bastante importante devido ao contexto da obra.

Entre os consagrados escritores latino-americanos vemos o reflexo do machismo histórico que faz predominar o destaque dos homens. Esquivel destaca-se como uma das poucas mulheres escritoras e o próprio romance em questão lança um olhar feminino com predominância de mulheres como personagens, que através do realismo fantástico da obra mostram diversos papéis das mulheres ao longo do enredo.

Da narradora à protagonista acompanhamos quatro gerações da família de Tita (Lumi Cavazos), e se por um lado o eixo da obra é a cozinha – local tradicionalmente relegado às mulheres e onde a personagem demonstra todo seu talento formado desde a infância, que culmina em receitas por vezes com efeitos mágicos – por outro as personagens mantêm distância da dominação masculina. A submissão gira em torno da matriarca, mamãe Elena (Regina Torné), que preza pela manutenção das tradições e da aparência de uma família sem problemas.

No livro é dada maior importância para a Revolução Mexicana, ocorrida no início do século XX, pois no filme apenas algumas cenas fazem menção ao período. O enredo conta com a personagem Gertrudis (Claudette Maillé), uma das filhas de Elena que, com a contribuição involuntária de uma das receitas de Tita, abandona o rancho da família e chega a ser general da guerrilha. De fato as mulheres tiveram destaque pelo envolvimento na causa zapatista e muitas famílias contribuíam com o exército revolucionário de forma voluntária. Como não poderia deixar de ser, dadas as características da personagem, mamãe Elena oferece resistência à revolução, que sob a ótica da matriarca foi reduzida e exposta como algo perigoso – para o tradicionalismo reacionário, de fato foi.

Para Tita o que importava mais que qualquer revolução, era seu amor por Pedro (Marco Leonardi) que desde sua adolescência foi proibido pela tradição de que a filha mais nova de uma família deverá cuidar exclusivamente de sua mãe. A partir da proibição a menina, que aprendeu a cozinhar desde criança com a criada Nacha (Ada Carrasco), teve toda a vida marcada por encontros e desencontros, não apenas com Pedro, mas com os sentimentos que o amor propicia. No livro, ao longo da história de amor, a autora flerta o tempo todo com o senso comum, mas o final sempre inusitado dos acontecimentos surpreende positivamente, refinando a obra.

A transição para a linguagem cinematográfica resultou em um bom trabalho, reorganizando alguns episódios do romance e apresentando em ordem mais simplificada. O diretor explorou ainda os recursos visuais para dar mais valor às sensações provocadas pelas receitas preparadas, e a trilha sonora para expor alguns sentimentos que no livro são bem detalhados. Infelizmente em algumas cenas esses mesmos recursos beiram o dramalhão mexicano que marcam algumas produções televisivas do país, mas não chegam a comprometer o conjunto final.

Mais que uma história de amor conflituosa tanto o livro quanto o filme nos fornecem elementos sobre a história do México, tradições familiares e muitos traços culturais, principalmente pelas receitas que dão água na boca. Além de encantar instiga qualquer um a provar as tortas de natal, as codornas em pétalas de rosa, os chilis nogados, etc.

 

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O Bem Amado

Guel Arraes apresenta sua versão para a obra de Dias Gomes quase quarenta anos após o lançamento da telenovela e trinta depois da série. Marco Nanini substitui Paulo Gracindo com muita competência na interpretação do político Odorico Paraguaçu, prefeito da fictícia Sucupira pouco antes do golpe militar que culminou nos vinte anos de ditadura no Brasil.

Evidentemente muita coisa mudou no cenário político do país, afinal ainda que alguns tentem indicar um suposto milagre econômico da referida época, o fato é que a economia crescia no mesmo ritmo da dívida externa, cujos desdobramentos, leiam-se arrocho da população para pagar juros aos credores, são sentidos até hoje. Porém é bastante preocupante pensarmos que algumas características do político caricaturado eram vistas como bem próximas da realidade quando retratadas por Dias Gomes e permanecem bem pertinentes até hoje.

Odorico é a figura imponente, de fala difícil, postura de superioridade e ao mesmo tempo promessas acolhedoras, seduzindo os eleitores com a falsa imagem de homem preparado e competente. Para isso conta com o despreparo do eleitor que não percebe as promessas mirabolantes e o discurso vazio por trás das palavras desconhecidas. As obras superfaturadas e as falcatruas protagonizadas pelo prefeito chegam a sofrer resistência de seu secretário, Dirceu Borboleta (Matheus Nachtergaele), porém a hierarquia o faz aceitar as ordens do político corrupto sem criar empecilhos.

O tom de comédia do filme, que vai desde a referência à surdez de Beethoven até expressões populares como “tauba de pirulito” nos faz lembrar que a comédia é utilizada para criticar a política desde a Grécia antiga, criadora do termo, oriundo das Pólis, e de obras teatrais encenadas até hoje, muitas vezes satirizando os políticos. O que torna curioso ver que para as eleições os programas de humor são proibidos por lei de fazer comédia com os candidatos – ainda que candidatos possam aparecer vestidos de palhaço alegando não saber o que faz um político que exerce o cargo pretendido.

Um elemento inovador na obra de Arraes em relação às que a inspiraram é a presença de um opositor supostamente de esquerda, mas que aos poucos também mostra o lado corrupto de quem almeja o poder, mais que o bem da população. Tonico Pereira faz o papel de Vladmir (a origem russa do nome não é obra do acaso, mas representa a URSS que na época protagonizava a guerra fria), dono do jornal de oposição que trabalha com o fotógrafo Neco (Caio Blat), que assim como o secretário do prefeito, tenta apresentar um pouco de lucidez ao superior diante das práticas condenáveis do mesmo, porém sempre esbarra na inferioridade de seu cargo.

Se a arte imita a vida o lado político não nos deixa muito animados, afinal reconhecemos em meio aos diálogos muito bem escritos do filme muitas situações verossímeis de corrupção, disputas políticas que beiram o ridículo, políticos despreparados, escândalos das mais diversas ordens e tantos outros exemplos. O que resta é torcer para que em um ponto específico do filme a vida imite a arte: quando economicamente a população é nivelada por baixo, com a grande massa ganhando quando muito o suficiente para sobreviver, mais eficiente que se vangloriar por pequenas ascensões e definições de nova classe média, escorraçando classes pouco mais baixas para se sentir próximo dos mais ricos, seria perceber que opressão sofrida pode ser derrubada através da união, para que o ganho real venha para todos ao invés de poucas migalhas para alguns.

Muito bom o equilíbrio entre a comédia e o espaço que proporciona à reflexão sobre o comportamento dos políticos.

* Recentemente uma liminar passou a permitir que os programas humorísticos façam sátiras aos candidatos, isso depois de treze anos da criação da lei que os proibia!


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